domingo, 29 de março de 2015

Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma

Review: Breaking Bad, primeira temporada
Antes de assistir Breaking Bad, ouvira diversos elogios. Foram tantos que começaram a me encher o saco, mesmo sem nunca ter quebrado a barreira do descontentamento e ignorância, e ido conferir.
Diante de tanta falação, eu decidi por dar uma espiada. Quem sabe não me surpreenderia?
A sinopse me deixou um gosto de “quero mais”, só que ainda indeciso. Apesar de ser interessante, poderia facilmente pender para o lado negativo. Mas era tão exótica que dificilmente uma série desse calibre continuaria até a quinta temporada(bem sucedida) se fosse "mais ou menos".
Breaking Bad 1A história contada é sobre Walter Hartwell White, um professor do colegial que ensina química. Ele é bastante humilde e ao mesmo tempo saco de pancadas, já que por diversas decisões frustradas, saiu de ganhador do prêmio Nobel para mais um professor de escola. Apenas aguenta tudo, como se não pudesse fazer nada e ficar calado fosse o melhor remédio.
Além do emprego dando aula, ele trabalha como caixa num lava-rápido. Um dos momentos mais constrangedores para Walter, é quando um funcionário do lava-rápido não aparece e ele, senhor já chegando aos seus 50 anos, tem de sair do caixa e ajudar a limpar os carros com as próprias mãos.
Já nervoso, por estar cumprindo um cargo deprimente e que se quer não deveria estar fazendo, vai limpar um carro caro e bonito. De repente Walter ouve risadas.
Ao levantar a cabeça, vê um casal de alunos da sua classe, que outrora ele chamara a atenção por estarem namorando. O rapaz ri enquanto tira uma foto. “Meu Deus, é o senhor Walter”.
Walter demonstra a fúria em seus olhos, mas já não pode fazer nada. Esse episódio narra bem o que, ou melhor, quem é Walter. Um homem com uma vida considerável, mas que se sente completamente frustrado por nunca ter conseguido tomar certeiramente as decisões na vida.
Então tudo muda exorbitantemente, quando ao desmaiar e ir parar num hospital, Walter descobre que tem cancer de pulmão. E o pior, este não é curável.
Com tratamento, ele talvez consiga no máximo 2 anos. Do contrário, em alguns meses estará à sete palmos da terra.
É a partir daí que o senhor Walter leva uma pancada emocional na cabeça e percebe não só que ao morrer, sua família ficará desolada cheia de dividas, mas que agora finalmente chegou a hora de tomar uma decisão por conta própria, afim de fazer algo mais antes de partir.
Breaking Bad 2
Traduzindo o parágrafo anterior: ele precisa de dinheiro! – mas onde encontrar tamanha grana?
Ao decidir acompanhar o cunhado policial (e mala pra cacete!) numa apreensão de um laboratório de metanfetaminas, e ver um ex aluno fugir do lugar pela janela, ele percebe o que pode fazer – um professor de química, que já foi altamente renomado, poderia facilmente entrar nesse mercado – genial!
Isso é o que ele acha. Logo descobrirá que não é tão fácil.
Breaking Bad 3
Além do câncer e despesas, sua vida não consegue ser mais fácil. A mulher está grávida e seu único filho é coxo e deficiente mental. E o pior, é quando estas pessoas, por quem ele basicamente luta, se envolvem em seu caminho.
Depois de firmar parceria com o ex aluno chamado Jesse, juntos montam um laboratório de metanfetaminas num trailer, a opção mais inteligente visto que se acontecer alguma coisa eles podem fugir.
Breaking Bad 4Jesse a principio não sabe com quem está lidando, mas Walter sabe o que faz – finalmente ele está tomando uma atitude.
Dar aula nunca fora o que gostara, ainda mais quando era rebaixado à um individuo qualquer sem nenhuma habilidade. Ali, naquele laboratório, ele pode expor o que sabe, ensinar e impor respeito, já que agora suas habilidades tem alto valor no mundo das drogas.
Depois de quase não acreditar, Jesse e Walter fabricam o Crystal mais puro possível. Mas nem tudo são flores. Ganhar dinheiro e ficar rico enfim? Não não senhores, não é tão fácil.
Primeiro é necessário convencer o chefão da máfia e TENTAR fazer algum negócio.
Como se não bastasse, na casa do nosso protagonista, a família começa a notar algo estranho, que vai se desenvolvendo nos outros episódios.
Aqui entra um efeito bola de neve, que eu chamo de efeito Seinfield.
Tá, uma série não tem nada a ver com a outra, uma sendo de comédia e a outra de drama, mas há algo que ambas carregam juntas. Vou explicar: tudo se inicia com uma simples ação, fora do comum, mas que não passa de uma ação verossímil. Algo de incomum (mais ainda) começa a acontecer dentro dessa ação; algo que deixa as personagens nervosas e em dilemas. É claro que elas tentam resolver a situação e, muitas vezes aparentemente conseguem, mas de repente mais uma coisa de incomum acontece, tornando aquela simples situação em algo pior. Aos poucos o enredo vai crescendo e crescendo, se tornando uma bola de neve rolando montanha à baixo, levando as personagens a lugares inimagináveis.
Além de utilizar desta tática, Breaking Bad tenta sempre enfatizar as personagens, lhes dando construção de fundo. É o rapaz revoltado com sua família rica, a mulher cleptomaníaca, o policial que quer fazer de tudo para acabar com a máfia e etc. Todas essas pessoas giram em torno de Walt, que desencadeia um desmoronamento na vida de cada um. É quase como estar jogando Jenga – está ali, o mini prédio todo montadinho; você consegue vê-lo e apreciá-lo. Mas a partir do momento que você tenta jogar o jogo, a situação muda de ângulo, e a visão passa de algo compreensível para algo altamente perigoso. Qualquer peça retirada erroneamente acabara com tudo!
A série se inicia(depois do “prólogo) com Walter dando uma aula de química, em que ele fala sobre transformação. O que é a transformação? Por quê ela acontece? – A transformação nada mais é que a química sendo profunda. Tentando dar sentido ao seu universo, em meio a tantas peripécias.
Walter está mudando, e não será mais o mesmo. O câncer lhe mudou – as atitudes estão lhe mudando. E nada mais criativo que mostrar e impulsionar essas mudanças por meio de impactos. Como todos que Walter sofreu na vida, mas não teve coragem de ter uma ação firme. Agora, um em especial, abriu-lhe a mente – ele não está mais em casa. O mundo do crime é outro lugar.
Isso fica claro, já que enquanto em casa ele é uma pessoa passível, que engole tudo. No mundo do crime ele leva essa passividade, mas é diferente. Ele é amedrontador, agressivo e inteligente.
Breaking Bad 5

A situação se torna mais aterradora quando Jesse e Walter acabam matando dois caras muito perigosos. Claro que toda a situação foi um acidente, mas não importa. Agora há dois corpos – o que fazer com eles?
E a situação consegue se tornar pior(como sempre): um deles está vivo! E AGORA?!
Walter, o gênio da química, tem a ideia brilhante de corroer com ácido o corpo deles numa banheira de plástico, para que não sobre nada. Resolvido o problema de como se livrar dos corpos, fica mais um: como matar o cara que está vivo?
Diante disto, os parceiros decidem tirar a sorte na moeda para ver quem fará determinada tarefa. E nosso protagonista fica com o que, hein?
Ao fundo, as outras personagens vão se desenvolvendo. E Jesse, com seu jeito malandro, tem seu devido espaço.
De um jeito bem peculiar e atrapalhado, Jesse resolve seu problema. A sua parte está terminada. Agora falta Walter matar o segundo cara.
O tempo passa. Walter não consegue fazer isso, é contra seus princípios. Ele estará terminando uma vida humana! – esses e mais conceitos são aplicados, sem ao menos dizer uma palavra. Apenas o rosto de aflição da protagonista demonstra já tudo o que precisamos saber.
O nosso protagonista vai dar comida ao refém, mas antes de chegar ao homem, Walter tem um ataque de tosse por causa do câncer e desmaia, quebrando o prato com o lanche. Dez minutos depois ele acorda. Junta os pedacinhos e decide fazer outro lanche. Dessa vez ele tem uma ideia.
O simples professor de escola decide dar uma chance ao sobrevivente preso. Com comida e cerveja, ele vai bater um papo com o homem acorrentado, afim de conseguir achar uma saída digna para ambos. Sem um morrer nas mãos do outro.
Papo vai, papo vem. Ambos descobrem terem uma ligação, bem  insignificante, mas que mostra o quanto o mundo é pequeno. Depois de um bom tempo conversando e “termos” decididos, Walter decide soltar o rapaz. Então ele vai pegar a chave. Mas algo lhe incomoda.
Esse incomodo se segue mais vezes, como um sexto sentido. Walter pressente que algo vai acontecer, não por sentimentos ou coisa parecida, mas a velha e pura lógica. Ele fica encucado, tentando desvendar o que seu cérebro percebeu e que nem ele mesmo viu.
Então lhe vem um súbito pensamento e rapidamente ele vai no lixo, procurando os pedaços daquele prato que quebrara. Ele vai montando, como se fosse um quebra cabeça, até que falta uma peça. “Não…!” ele diz sabendo bem o que isso quer dizer. “Não!”
Domingo, o rapaz refém, quando o prato quebrou e Walter desmaiara, pegou um pedaço deste e agora provavelmente quando seu benfeitor lhe soltar, enfincara na garganta do velho o pedaço do inocente prato.
White sabe o que isso significa. Que não há termos. Não há conversa. Ele terá que matar o refém.
Breaking Bad 6
Walter acaba por realizar e agora matou duas pessoas. Uma delas intencionalmente. De uma forma exótica, ele teve que aprender o que sua mãe sempre dissera quando criança: “nunca confie em estranhos”. São esses, os valores que tem que ser reaprendidos na forma da vida adulta, para que aí sim, Walter se torne um homem.
Lá se foi mais uma pancada. Novamente o seu psicológico mudou. É quase como o universo. Está sempre em expansão, tendo mudanças e mais mudanças insignificantes, mas que aos poucos caminham para um novo local. Quando Deus percebe, um novo planeta foi criado.
“O que eu fiz?!” – Parece que é hora de desistir. Isso é, se a vida lhe der tréguas. Por que como qualquer efeito Seinfield, Murphy ou o que for – a bola de neve continuará rolando e tudo aquilo que pode dar errado, com certeza dará.
Breaking Bad 7Em todo esse texto eu narrei até mais ou menos o episódio 4, fazendo algo que a série faz. Enquanto você lia todos os parágrafos em que eu resumia tudo, ao fundo, basicamente analisei a primeira temporada inteira. Não que nada aconteça nos próximos episódios não narrados, muito pelo contrário, mas são esses dilemas que ele segue: contar uma história aparentemente comum, com um plano de fundo que vai se desenvolvendo, até que ele faz parte da história principal e ela não é mais comum.

Conclusão

Breaking Bad 8
Breaking Bad não é uma série, é A Série. Com temas comuns que envolvem o telespectador, por sua simplicidade e ao mesmo tempo criatividade, diante do enredo mirabolante que se desenvolve aos poucos, com personagens cativantes em todos os sentidos. Temos quem odiar; temos quem amar. Não há mocinhos nem vilões.
A produção é toda minimalista, com nenhum erro em meio a tanta aula de química. Misturando o que seriam coisas técnicas, com o psicológico das personagens, tratando-as muito bem, cada uma andando por um caminho diferente.
As atuações estão incríveis, com nenhuma sendo mais ou menos. Até mesmo o garotinho, irmão de Jesse, consegue se sair bem. Imagina Bryan Cranston. Com significativas expressões, ele nos dá toda a ambientação da mente de Walter, seus pensamentos e dilemas. Seu parceiro não fica atrás, caindo como uma luva tanto o ator quanto o personagem construído – dois extremos que funcionam bem. Que tem a tal química.
Por que apesar de falar sobre experimentos, a verdadeira experimentação não está no laboratório, sim na história. O que certos elementos podem fazer na vida de uma pessoa, resultando numa reação, muitas vezes transformação. 
As coisas acontecem, mesmo que não vemos. Só uma pancada pode clarear nossa visão e nos fazer ver aquilo que era tão escondido. Tudo deve ser jogado fora, pois o que deverá ser feito, será feito. Principios ou amor? – é disso que essa primeira temporada se trata:
A quebra da vidinha comum, dos princípios “bobos”, para erguer quem ama, afim de vê-lo finalmente vitorioso.

El Psy Congroo
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