quinta-feira, 19 de março de 2015

Mozart e sua genial obra

Review: Amadeus
"O homem acordou transtornado, com as vestes brancas e os cabelos bagunçados. Com um salto, levantou-se de olhos arregalados, olhando eletrizantemente ao redor. Onde estava? Não sabia, mas era algo bastante parecido com os seus sonhos.
Um jardim alegre, que tocava a sinfonia dos pássaros e enchia-se da harmonia do maroto vento, assoviando por entre as belas plantas. Em especial, as margaridas e rosas, que se misturavam numa combinação exótica, enquanto as abelhas zuniam para lá e para cá, engravidando-as com seu doce pólen.
Em meio a isso, o homem se acalmou. Não adiantava ficar desesperado. Como ficar nervoso ajudaria? Tinha era de procurar algum ser vivo em meio àquela fauna. Cogitou por um segundo deitar-se e ficar rolando em meio à grama, como um gato preguiçoso. Era tudo tão lindo.
Mas colocou-se no devido lugar e disse para si mesmo, com um tom autoritário: "tenho que ir para casa". Precisava trabalhar, mesmo que se quer soubesse como voltar.
Andou, andou e andou durante horas. Viu os veados. Viu as borboletas. Viu as ninfas. Viu coisas que nunca se interessou em escrever. E ninguém pode lhe ajudar.
Já ao fim da tarde, quando o sorridente Sol deixava as pálpebras caírem e se preparava para uma relaxante soneca, enquanto o céu tratava de arranjar-lhe um lugar apropriado, trocando de turno com as cores; mandando as estrelas vigiarem a menisquente Lua, o homem se sentou ao pé de uma mangueira. Já exausto, tentando elaborar um plano para voltar para casa.
Ficou nisso um bom tempo. Até que ouviu o som de algo. Tentou acompanhar.
Pareciam flautas, violinos.... Chegou a reconhecer Oboés. O som lhe lembrou de casa, onde era devidamente adorado. Onde tinha algum valor. Onde seus sentimentos ganharam força e se manifestaram, de algum modo, surpreendendo parte da população. Foi acompanhando o som. A sinfonia era linda. Quem compunha?
Aos poucos foi andando, até perceber que o som não vinha de nenhum lado e sim de baixo. Olhou estranhamente para a grama aos seus pés. O som ficou mais alto.
Então percebeu. Como não pudera perceber? Ouvira mais vezes do que alguém pudera ouvir. Apreciara mais vezes que alguém pudera apreciar. 
Não era uma música qualquer, era seu próprio requiém tocando por todos os cantos do cemitério, levantando até os mortos em meio a tamanha genialidade."
Incrivelmente durante a infância, eu me interessara por Mozart. Graças ao meio familiar, eu pude apreciar um pouco da obra do compositor, enquanto relaxava. Na época, não havia internet e eu não tinha a audácia nem inteligência suficiente para ir à biblioteca pegar uma gigante biografia deste.
Passados alguns anos e música clássica esquecida, eu me deparei com um antigo cd empoeirado com as melhores músicas do homem. Mais um tempo passado, chegamos ao presente, onde em minha mente, Mozart havia sido esquecido em meio a tantas bandas de rock.
Foi então, quando elaborava um post especial, me deparei com o filme Amadeus. Ao inicio nem o cartaz e muito menos a sinopse me chamaram a atenção. "que filme chato", eu pensei julgando sem se quer conhecer. Mas aos poucos aquele nominho foi crescendo na minha mente, até que transtornado, correndo para ouvir Mozart, eu decidi assistir o longa, dessa vez, com a mente aberta e esperando algo realmente bom.

Wolfgang , The Creator

amadeus
No filme Amadeus, é contada um pouco da história de nada menos que Wolfgang Amadeus Mozart. Sua adolescência e vida adulta por meio da visão de Antonio Salieri, primeiramente um fã e depois rival.
Em meio ao sucesso e desgraça, vemos os problemas que importunavam Mozart, uma alma jovial e brincalhona que acabou não tendo sorte.
O que me intrigou primeiramente é o retrato da época. Apesar de ser uma história que mais uma vez mostra o século XVIII, ela tem sua própria personalidade e singularidade. Começando pelo tom cômico.
Nunca vira um filme dramático que intercalasse tão bem com a parte cômica. Vide a cena inicial, que mostra um hilário gordinho comendo a comida de Salieri e logo após, entrando junto do outro criado no quarto, para salvar Antonio do suicídio.
Apesar de mostrar o dia-a-dia e ter obrigatoriamente o ritmo lento, na realidade eu achei bem frenético. Mesmo assistindo a versão do diretor, tudo passou tão rápido, que mal pude ver.

O Verdadeiro Mozart?

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Fica claro mesmo para quem não conhece a história do compositor, que o filme com certeza é mais fictício que biográfico. Me intrigou muito o jeito que ele trata as personagens, pois do mesmo jeito que ele é fiel ao histórico de Mozart,  como os estudiosos conhecem, ele cria ao seu modo o personagem, sendo totalmente novo. De inicio não fui muito com a cara do ator que interpretava, mas ele mostrou grande performance, se sobressaindo.
Mas quem se sobressaiu mais ainda, foi Salieri novo e idoso. Desde as expressões, até o modo de falar, os atores foram fantásticos, sendo basicamente uma caricatura humana. Você consegue ver a desgraça e inveja estampada no rosto.
A mulher de Mozart, Constanzi, não fica muito atrás. A atriz apesar de ter sido contratada de último momento, fez muito bem o trabalho, dando um ar de esposa revoltada e ao mesmo tempo preocupada. O diretor se empenhou em trabalhar com atores expressivos e usar essa expressividade a seu favor.
Ainda sendo cômico, consegue retratar a vida e como eram as relações com o rei fielmente. E faz mais, critica a ignorância.
Em meio a tanta coisa, cabem mensagens e lições, que não saem pastelonas. É quase uma ironia. Deram um filme genial para um cara genial.

História

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A história, apesar de ser previsível, tem seus momentos de reviravoltas e surpreende. O diretor/roteirista está ciente do que pensamos, tanto que usa isso a seu favor, criando uma iminente história que se torna outra.
A música clássica está fortemente engajada nas cenas, se mesclando e sendo ponto principal do roteiro. Sem um o outro não seria o mesmo.
É quase como adentrarmos a mente do homem que criou aquelas belas sinfonias, o conhecendo melhor. Vemos seus defeitos. Vemos suas qualidades. Vemos Mozart mito. Vemos Mozart triste. Sentimos piedade. Sentimos raiva.
Um filme que consegue trazer tantas emoções merece ser considerado louvável, pois está além do que a maioria consegue fazer.

Trilha Sonora

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Logicamente o longa é feito das composições de Mozart. O legal é que todas são bem colocadas, principalmente nas cenas dos concertos.
Concertos estes que merecem destaque pela produção. O trabalho de figurino, cenário, tudo, é espetacular. É como ver um mega fã do século 18 fazendo o trabalho à mão, com o maior esforço possível.
Em meio a isso, a música entra, dando o tom em todas as cenas em que é utilizada. Vide a cena que o pai de Mozart morre e este cria a sua obra mais sombria, Don Giovanni (de acordo com o filme. A realidade é bem outra).
É fácil sentir o temor e arrepios da morte, prestes a vir lhe buscar, com sua voz estrondosa, lhe assombrando para sempre. Um corpo que importuna a tua mente, revelando todos os teus pecados cometidos e julgando, como só Deus pode fazer.
A passagem de tempo é também bem utilizada e o trabalho de pesquisa excepcional. Com isso, o filme consegue levantar diversas questões e trazer grande refletimento, mesmo que tenha que criar um vilão inexistente para se sustentar, ele se sai tão bem como se realmente tivesse existido.
E faz mais, funciona como um "filme bastidores", em que entendemos melhor como as óperas eram planejadas. Com que finalidade e demanda.
É quase como descobrir um universo novo, mesmo para quem já conhece. O diretor é simplista e mesmo assim te faz entrar num universo complexo, onde a simples música não consegue sustentar o arrogante Mozart
Ele se deteriorou? Ou fui culpa de Salieri? Quem sabe, do próprio rei? Até do público?

Conclusão

Antonio Salieri vira para o padre e toca piano. "Então conhece esta". O padre revela que não. "Ouça. Que tal esta?". Toca mais outra. O padre também não conhece. Então, com  um sorriso maligno, ele toca mais uma e o padre se alegra. "Eu conheço esta! É maravilhosa! Desculpa, não sabia que era sua". O velho responde já perdendo o sorriso maligno: "Não é. É de Mozart".

El Psy Congroo.
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