segunda-feira, 16 de março de 2015

Flash e a corrida contra o tempo

Review: Justice League - The Flashpoint Paradox (Ponto de Ignição)


Não sou muito fã dos quadrinhos da DC, conhecendo muito mais os da Marvel, mas nada que me leve a ser o dito fanboy. Apenas não tive uma infância com os quadrinhos do Super, Mulher Maravilha, Batman e cia - preferia ficar lendo as piadas infames do senhor Aranha. Porém, uma coisa que me marcou foram as animações da Warner.
Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites são provavelmente as melhores animações de super-heróis. Muitos dos roteiros vencem de lavada filmes grandes de hollywood, como a tão famosa trilogia Batman ou até mesmo o mais recente Superman.
Confesso que fiquei com um pé atrás quanto a animação Flashpoint Paradox. Nas hq’s, essa saga é apenas uma desculpa esfarrapada para dar um reboot no universo inteiro e claro, vender mais quadrinhos. Porém, Flashpoint Paradox sabe do que necessita e esquece toda essa baboseira de reboot e por fim, opta felizmente mais pela qualidade do que a venda de bonequinhos.

Universos paralelos sempre me atraíram, vide episódios deste tipo no desenho da Liga, que geralmente eram meus preferidos. O novo longa dos Super Amigos segue essa linha e reinventa mais uma vez como explorar seus personagens em universos paralelos, sem parecer galhofa ou esquecer que o filme ainda se trata sobre heróis, que mesmo sendo diferentes, usam psicologicamente a cueca em cima da calça.
E mais, adorei esta animação também pelo fato de se focar num dos personagens pouco valorizados dentro do universo DC. Mesmo tendo seu espaço, sempre pôde mais – e aqui ele é tudo isso. Flash, o ser mais rápido mundo, consegue sustentar as pontas como protagonista, mesmo com a personalidade plastificada.


Na história, depois de mais um dia na rotina da Liga combatendo vilões, Barry Allen, vulgo Flash, acorda num mundo diferente. Um mundo onde A Liga da Justiça não existe, ninguém nunca ouviu falar do Superman, Cyborgue faz parte do governo, Batman é Thomas Wayne (pai do Bruce) e uma guerra entre Atlantis e Temiscira está prestes a começar, com Aquaman (que aqui está um brutamontes) liderando de um lado e Diana, Mulher Maravilha, do outro.

O ponto principal que faz o longa ser bom, é que ele não prima em criar expectativas e muito menos em ser megalomaníaco. Prefere ser todo redondinho, com ótimo ritmo. Nada é jogado à torto e à direita, tudo ao seu tempo, crescendo gradualmente. Claro que tem diferenças entre a animação e a hq, mas todas plausíveis.
Barry Allen é tratado com respeito, principalmente em sua origem. Mesmo que seja mais um herói com algum parente morto, seus dramas são fortes e o pontapé inicial, ainda que previsível, ocasiona um plot twist sincero, sem demasiada inteligência, mas esplêndido. É como dizem, a verdadeira qualidade não é no que é feito, mas sim em como é feito.
Flashpoint também é interessante pois é essencialmente para fãs. Nada de voltar e explicar origens, muito menos ficar contextualizando o que já aconteceu. Ele segue em frente sem dó nem piedade, já que sua função é desconstruir a boa e velha realidade. Sem a necessidade de se explicar, o filme usa do efeito borboleta para dar sentido à trama, sendo interessante. Um ato muda a personalidade e vida de todos. Vemos como Diana no “nosso mundo” é amável e segue a moral, enquanto no novo mundo é vingativa e segue a moral de outro povo, mas dessa vez uma moral narcisista, se mostrando ao fim nada mais que uma moça com o coração pertido. Aquaman luta pela esposa morta e Thomas Wayne só aceita o desafio de acabar com a guerra para que o filho Bruce novamente viva. Apesar de não dizer claramente, Flashpoint Paradox é sobre o amor e a humanização dos heróis, que apesar de todos os dias salvarem o mundo, são defeituosos.
A nova realidade alternativa da também poderes aos roteiristas - fazia tempo que não via uma animação sobre super-heróis tão sanguinolenta. Talvez seja a que mais tenha gore da DC. Sem cortes, nem amenização. É tudo direto e seco, como uma pancada forte que consequentemente ocasiona dor. Diana enforca; Batman joga vilões de prédios para se estatelarem no chão; Flash é queimado vivo e Superman não controla os poderes e dizima todos os inimigos, sem um choro de angústia ou piedade.
Esse é um ponto positivo para a trama, que fala sobre o novo mundo – um mundo que não é uma margarina Delicia toda escorregadia. Em resumo: os mundos paralelos criados nas animações DC são em sua maioria o nosso. Simples assim, é o que aconteceria caso os super-heróis fossem reais.

Corra Flash, Corra!

Um dos pontos negativos do filme é seu traço. Não há harmonia. As personagens são uma caricatura estranha dos heróis ou apenas mal desenhados mesmo. Mesmo assim, em partes é recompensado pelas ótimas cenas de luta, muito bem orquestradas.
Os furos do roteiro são bem visíveis até para quem não é fanático pela DC (vulgo eu). Personagens são esquecidas, como Lois Lane ou os Rebeldes – mas tudo isso consegue ser amenizado pelo fim do mundo.
Flash por incrível que pareça consegue correr demais – e por Flash quero dizer o enredo. Mesmo com um bom ritmo, o filme fica com um ar de que tem tempo contado, não dando tanto enfoque quanto deveria, nas cenas como um todo e personagens. Algumas meramente são objetos de desenvolvimento para outros (como cyborgue) ou só estão ali para dar um oi. Não há uma concentração exata – alguns são mais desenvolvidos. Mas, as ideias iniciadas aqui são tão interessantes que já valem o filme todo.

Conclusão

Enquanto a Marvel está anos luz na frente da DC nos cinemas, nas animações acontece exatamente o contrário. Flashpoint Paradox é um ótimo filme, que poderia se valorizar um pouquinho mais. Como adaptação não é lá essas coisas, mas como filme – funciona muito bem. As ideias são tão bem arrojadas que sobrepõe com certeza as da hq. Flash finalmente tem um espaço maior e melhor, mostrando que há ainda muito a se fazer e explorar dentro das animações Warner. Liga da Justiça Sem Limites criou e cultivou um caminho que agora é seguido por todos os heróis. Sem medo de parecer babaca por usar a cueca em cima da roupa, Flashpoint é uma das melhores animações do universo DC. Fazia tempo que heróis e violência não andavam lado a lado.

El Psy Congroo.
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