segunda-feira, 2 de março de 2015

As brisas da filosofia

Lá estava eu, descompromissadamente discutindo com um amigo no facebook. A conversa se alternava por diversos rumos, desde história à sociologia. O grande porém, aconteceu quando adentramos no campo da filosofia.
A discussão então se tornou mais acalorada por termos pontos de vista distintos, o que me ocasionou diversas reflexões, que logo compartilharei com vocês. Primeiro, tentarei reproduzir os dois lados do tema e seus argumentos.


Pontapé Inicial

"Capa do livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Obra que recomendo como obrigatória para todo ser humano"

Embebecido pelo O Mundo de Sofia, joguei para debate a seguinte perguntinha (nada complicada hue): poderia nós sermos parte de um livro?

Meu amigo rapidamente disse que não, pois que livro seria esse com mais de mil páginas? Que história chata seria essa? Viveríamos no time skip? - simplesmente não faz sentido e é inviável sermos um livro. De acordo com ele, se for assim deveríamos considerar também que o universo possa ser um grande monstro do spaghetti. Em sua opinião pessoal, é por essas e outras que existem filósofos mediócres e que muita gente não se interessa por filosofia. Isso é uma reflexão inútil, que nunca poderemos chegar.

Em contraparte, concordei que nunca chegaremos numa conclusão e usei Immanuel Kant como base (*Kant diz que nas reflexões do divino ou existenciais, nossa razão estanca por não termos material suficiente para continuarmos e dai por diante, nossa mente acaba utilizando de atalhos para explicar, como por exemplo a religião), mas discordei totalmente disso ser inútil.
Um filósofo nunca pode dar algo como certo sem ter provas suficientes - isso significa considerar que o universo possa ser um grande monstro do spaghetti? - Sim. Mas isso significa acreditar nisso? - Não.
Frente a algo deste tipo, meu amiguxo acabou por dizer que isso é besteira e que é só ficção; se ele preferir algo assim, ele vê um filme e que é idiotice ponderar algo que não se relaciona com nosso cotidiano ou nossas experiências. Sendo assim, ele acabou por alegar que é mais voltado para as teorias de Aristóteles.

Primeiramente, Aristóteles nunca desconsiderou o metafísico (que é algo além, como o próprio nome diz, do físico). Ele apenas enfatizava que as nossas experiências eram mais importantes e diante da teoria de Platão de que a essência vem primeiro (Platão dizia que as nossas ideias existem em outro mundo, ou seja, antes de nós, e o que vemos é só uma sombra do real. Confuso? Recomendo ler este post), discordou piamente dizendo que as ideias surgiam depois do nosso nascimento, sendo as experiências responsáveis por criá-las.
Aristóteles enfatizava muito o real, e foi um dos primeiros filósofos a tentar organizar o que existe, de forma que gerou posteriormente a biologia e outras ciências. Porém, em contraparte, ele errou, talvez por conta do meio em que vivia ou das ditas "experiências", em diversas coisas. O exemplo mais básico que tenho aqui logo em mente é sua opinião sobre as mulheres: Aristóteles dizia que as mulheres tinham a capacidade mental, ou razão, inferior à dos homens, sendo algo parecido com uma criança. Aí você diz, "ah mas naquela época era assim, normal ele errar" - pois Platão foi contemporâneo dele e dizia o contrário: qualquer ser humano, seja ele homem ou mulher, pode chegar à plenas conclusões pela razão. Dizia até mesmo que as mulheres podiam ocupar grande cargos como líderes, utilizando somente a astúcia, não necessitando da força bruta.
Foi a visão de Aristóteles, não a de Platão, que perdurou pela a Idade Média e influenciou a igreja católica.
"Quadro, A Escola de Atenas de Rafael Sanzio. A obra exemplifica bem as divergentes opiniões dos filósofos entre a importância do físico e metafísico. Aristóteles (o de azul) gesticula para baixo, simbolizando o plano terreno, e Platão (o de vermelho) aponta para cima, simbolizando O Mundo das Ideias"

Bom, agora vou tentar explicar para você por que devemos ponderar o monstro do spaghetti hue

Como já dito lá em cima, um filósofo nunca declara coisas sem ter provas concretas. Então, portanto, posso dizer que o universo é uma bola de futebol e ficaremos aqui por dias discutindo se estou louco ou meramente chapado. Pois então, adentraremos novamente em Kant: por não termos material suficiente, nossa razão estancará. Simplesmente não terá como prosseguir; será plausível tanto o fato de sermos uma bola de futebol ou não.
Então o que faremos? - tentaremos achar provas. E nessa busca incessante pela bola de futebol ou o monstro do spaghetti, nos depararemos com diversos empecilhos, barreiras e coisas mais. Basta lembrar que mesmo que minha mente esteja longe, no mundo das ideias, estarei fadado às experiências sim e como vivo em busca da verdade por meio da razão, vou tentando resolver os conflitos que aparecem. É nesses conflitos que as descobertas são feitas.

Pintura retratando Isaac Newton. 
O filósofo e cientista foi conhecido 
pela lei da gravidade e por ser fanático
pela Bíblia, dedicando parte da vida para
decifrar códigos secretos em versículos.
Um exemplo prático é: a gravidade. Você pode vê-la? Não. Pode senti-la? Não. Nada por nossos sentidos humanos pode comprovar sua existência - porém, ela foi comprovada empiricamente por Newton. E numa época anterior, Galileu deu risada diante da ideia de que existisse alguma força ou lei que agisse em todos os objetos. Essa é a graça da filosofia, o importante não são as respostas, sim as perguntas: elas quem nos levam para novos lugares - como olhar de longe um pedaço de terra e deduzir que seja uma ilha, chegando lá vemos que é um continente! Ou apenas um barquinho. Aí sim, estando lá, poderei afirmar as coisas.
Todos os filósofos, digo TODOS sem exceção, que se enveredaram por caminhos alternativos e afirmaram coisas sem provas suficientes, erraram feio. O caso mais notável talvez seja Descartes, uma grande ironia: pra quem não sabe, o senhor com nome de reciclagem dizia que devemos duvidar de tudo, repartir esse conhecimento em quantas vezes for necessário e aos poucos ir buscando provas e derrubando barreiras de estereótipos e preconceitos -, porém, ele logo afirma a existência de Deus pela simples dedução de termos a ideia de um ser perfeito sendo nós imperfeitos; e também diz que todos os animais são regidos por leis, sendo totalmente mecânicos (aliás, tudo que é físico).
Nem preciso dizer que a teoria de Deus é altamente questionável, não sendo suficiente para ser usada como fato. E sobre os animais, a visão de que o bicho é como uma máquina e portanto, até seu choro é como se fosse um maquinário rangendo, abriu alas para a ciência que usa até hoje espécimes para experiência. O que contesta toda a afirmação de Descartes é Darwin, pois os cachorros, por exemplo, não tem a mesma que razão que nós humanos (ou alma), mas é visto que tem sim noção do local onde estão e que sentem, mesmo que seja algo muito simples e rústico. Nós seres humanos já fomos assim ou até piores, há milhões de anos atrás.


O universo ser uma bola pode ser verdade pelo simples fato de não sabermos nossa posição ou o tamanho que somos diante do todo (por não conhecermos o todo). Veja uma planta: antigamente achava-se que sua composição era o caule e as pétalas, simples assim. Aos poucos foram descobrindo mais coisas, moléculas, átomos e etc, ao ponto de existir numa simples folha um universo inteiro operando - e isso é só o que conseguimos ver em nossa pequena estrada evolutiva. Quem dirá que não somos um ponto em outro universo? Já se deduz universos dentro de buracos negros (coisa que pode explicar daonde surgiu o big bang), imagina o que não podemos descobrir? Pode ser viagem? Sim. Pode ser considerado ficção? Sim. Mas é tudo isso que nos faz caminhar, seja prestando atenção no além da vida ou no nosso dia-a-dia. Não devemos desconsiderar nenhuma teoria até termos provas para derrubá-la, pois é desconsiderando ou pisando em falso que influenciamos não só nossa própria existência, mas das futuras gerações. Imagina se Newton desconsiderasse totalmente a gravidade somente por que Galileu disse que é totalmente improvável ou por que ele não pode vê-la?
Não vamos ficar afirmando a existência ou a não existência de Deus, ou ponderando coisas vazias - vamos buscar provas, enfrentar as barreiras do estereótipo e mudar o mundo. Não sou revolucionário ou o que seja, mas acho que utilizar apenas o que existe ao redor como base é o maior preconceito que há, inclusive consigo mesmo.

El Psy Congroo.
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