terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mensagens da Matrix #001 - The Sirens, as musas inspiradoras do cenário do metal pt. 1


Hallo, pessoal! Aqui é a estréia da coluna Mensagens da Matrix. Essa coluna vai ser livre; posso estar um dia falando de coqueiros e no outro sobre mecânica quântica. Claro que vou me esforçar pra entregar um material de qualidade.

Ou não. Heh.

Sem mais delongas, vamos à primeira mensagem: se você é fã de bandas de metal europeu famosas atualmente, como Nightwish, Epica, Within Temptation e outras, você deve conhecer, então, a inspiração, as precursoras de 90% dessas bandas. Recentemente, elas fizeram uma turnê mundial juntas, onde cantaram músicas das carreiras solos, músicas das bandas e projetos que participaram e músicas feitas para o projeto.

Elas são as The Sirens: Anneke van Giersbergen, Kari Rueslåtten e Liv Kristine.
Vou abordar cada uma delas separadamente, as bandas que participaram e os impactos e depois o The Sirens como um conjunto. Vou separar em três partes por ser bem longo, mas espero que seja informativo o suficiente!

Liv Kristine


Liv Kristine Espenæs Krull, oriunda de Stavanger, Noruega, não começou como uma cantora. Antes de tudo, formou-se em Letras. Só em 1994 entrou na banda que começou o estilo Gothic Metal, a incrível Theatre of Tragedy, junto com os demais integrantes e, entre eles, o compositor e letrista genial Raymond István Rohonyi.

Era Theatre of Tragedy


Theatre of Tragedy começou incerto, passando por um processo de consolidação da banda e seu estilo. Formada dois anos antes de Liv entrar, começou como Suffering Grief. Ao terminarem de compôr a primeira música, Lament of the Perishing Roses, mudaram o nome para La Reine Noir. Foi quando convidaram a Liv para os vocais.

Em 1994, lançavam sua demo, já com o nome Theatre of Tragedy e Liv já era integrante fixa do grupo, não apenas uma participação especial. Dois anos consecutivos, dois álbuns e mais uma EP. A banda começou a crescer a partir daí. Os vocais eram do tipo "a bela e a fera" (uma das precursoras também desse estilo): uma voz soprano suave e um gutural - às vezes se cantando por uma voz grave, ao estilo de spoken words ou com variação de notas pequenas - em contraste numa mesma música, como a seguir:


É possível observar, também, uma atmosfera pesada e as letras em inglês arcaico, com referências culturais. Algumas músicas que destoam da fórmula principal são Der Tanz Der Schatten, escrita em alemão e A Distance There Is, sem os guturais de Raymond.

Em 1998, lançou Aegis, o álbum que causou o boom da banda. Esse álbum destoa dos demais de uma forma sutil. As letras agora continham referências culturais em peso; a atmosfera ficou mais versátil e mais leve, mais artística; Raymond deu mais espaço às spoken words do que guturais e a voz de Liv teve mais destaque; as músicas se tornaram mais dinâmicas e a evolução e maturação da banda era clara.

E foi com esse álbum que muitas, muitas bandas que viriam a seguir tiraram inspiração. Aclamado pela crítica e adorado pelos fãs, não sem razão.


Só prestar atenção na letra da música e você entende como a formação em Letras da Liv ajudou na formação geral dela como cantora. Além da voz deliciosa, ela consegue cantar uma letra extremamente complicada em referências e interpretação geral com uma naturalidade assustadora.

Como dito anteriormente, ficaram famosíssimos com esse álbum, mas aí começaram a passar por uma mudança peculiar pro mundo do metal. As composições não deixaram de ser geniais, mas agora eles estavam... com músicas mais eletrônicas.


Musique foi lançado em 2001 e, com certeza, deu um susto na maioria dos fãs. A virada do milênio fazia isso com as pessoas??? MUITO mais batidas, o abandono do inglês arcaico por um inglês mais simples  - mas calmaê, nem tão simples assim - e as referências culturais bem reduzidas; as que tinham, remetiam à um mundo moderno, como medidas científicas e jargões aqui e ali. Note que, enquanto nos álbuns anteriores, Liv tomava uma voz mais suave e operática, nesse álbum ela começa a usar mais do canto popular e... olha só que interessante: ainda cai muito bem, adaptando-se ao estilo.

Em resumo: passaram por uma mudança drástica de estilo, agora com Rock Industrial. Claro que teve fã que não gostou das novas músicas da banda e preferiu ficar nos três primeiros CDs.

Mas não se intimidaram com isso e levaram um passo a frente com o álbum seguinte: Assembly, lançado em 2002. A atmosfera teve uma mudança em comparação ao álbum anterior, com músicas mais upbeats e lembrando muito mais coisas que se tocariam numa balada (ahh, se tocassem...). As letras mudaram de foco: em Musique, retratavam mais o cotidiano geral de uma metrópole, criticando-a e até mesmo a tecnologia e as crescentes semelhanças humano-máquina; já em Assembly, tinha mais o foco em relações amorosas e sexuais com uma pitada de ironia, apelando mais pro sensorial em algumas músicas.

Apesar de ter fãs que deixaram de acompanhar a banda por seu novo gênero, muitos também se mantiveram fiéis e curtiram os novos álbuns...

...até Liv ser demitida da banda em 2003, onde alegaram "diferenças artísticas". A própria, entretanto, diz que foi demitida por email, sem darem satisfação nenhuma pessoalmente e muito menos motivos. Aparentemente, isso também serviu de inspirações de como algumas bandas deveriam demitir suas vocalistas.

E assim termina a era Theatre of Tragedy da Liv Kristine.
"Um de vocês irá me trair... ou todos. Quem tem o ego maior pra se destacar, provavelmente." Já adivinhou quem foi?

Depois disso, Liv Kristine nunca realmente se desapegou da época e só vive das glórias do passado.

Ha! Mentira. Ela tinha tudo pra parar aí e ficar engessada no começo do segundo milênio, mas ela não fez isso. Seguiu em frente, carregando coisas boas da Theatre of Tragedy, mas obviamente não se prendendo a isso.

E então lançou uma banda junto com seu marido. De Gothic Metal? De Industrial Rock? Não. Ela decidiu seguir o que seu coração melhor dizia: enraizado na cultura norueguesa, com as inspirações pra letras um pouco complexas, mas sempre fazendo jus às suas raízes.

Viking Metal.

Era Leaves' Eyes

a.k.a Liv's dressup game.
Pra contar a história de Leaves' Eyes, tem que se conhecer outra banda antes: Atrocity.

Eles estão nessa foto. Aí mesmo. Tira a Liv, é Atrocity. Coloque-a de volta, é Leaves' Eyes.

A origem de Leaves' Eyes vem com o relacionamento de Liv Kristine e Alexander Krull, líder da Atrocity, que entrou em um hiato de 8 anos, começando em 2000, até lançar o álbum Atlantis, que... olhe só, era uma homenagem à sua mulher. Esse amorzinho do casal fez com que, assim que Liv saísse do Theatre of Tragedy, eles começassem com essa nova banda, que pode ser considerado até um projeto paralelo do Atrocity.

Agora, espero que você já tenha notado uma coisa. Leaves' Eyes. Liv's Eyes. Entenderam a origem do nome? Mas por que "leaves"? Pela folha ser uma representação da natureza. Nessa era, Liv vai deixar bem claro todo o seu amor pela natureza.

Talvez por essa filosofia e amor serem o que dá a corda nas músicas, há uma carga emocional charmosa em como os retratos musicais feitos por ela saem. Usando muito do folclore de seu país, cantando mais em norueguês... é claro que ela se sente à vontade nesse palco.


Lovelorn, o primeiro álbum da banda, foi lançado em 2004. Ele não era tão direto e tão explícito quanto à inspiração da Liv - que, convenhamos, na época não era  a natureza, mas também seu marido -, tendo escrito letras mais românticas, mas sem deixar a atmosfera desejada ir embora. E que atmosfera.

Em 2005, foi lançado Vinland Saga (foi quando começou, aos pouquinhos, a deixar mais explícito o folclore em que Liv tanto se inspirou). Nele, conta a história de Leif Erikson, um explorador europeu que encontrou a América bem antes de Cristóvão Colombo; cerca de 500 anos antes. Vinland, inclusive, sendo o nome com o qual chamaram uma zona específica da América do Norte: a área do Golfo de São Lourenço, Nova Brunswick e Nova Escócia. O álbum, em si, foca muito mais em um romance, onde Leif abandona sua amada para ir à Vinland (de acordo com a história do mesmo, seria implicado que essa amada seria Thorgunna).


No ano seguinte saiu a EP Legend Land, dada como continuação de Vinland Saga. Nesse, menos romance e mais folclore apareceu. Era mais sobre o conflito entre os nativos americanos e a tripulação viking do que o amor e as saudades da amada. A partir daí, ficou claro que Liv se firmou na criação de letras, balanceando bem os dois temas e fontes de inspiração.


Até esse ponto, não foi necessário dizer que Leaves' Eyes estava cada vez mais famoso. Pela fama anterior do Theatre of Tragedy, já nasceu famoso; até mesmo fãs antigos aderiram, já que consideraram essas músicas como um retorno de Liv "às raízes". Cada álbum revalidava as expectativas dos fãs e trazia novos para ouvir.

Mas o álbum seguinte não atendeu às expectativas. Na verdade, excedeu.


Njord, lançado em 2009, foi um álbum refrescante, mais sinfônico, com orquestra e grandiosidade. As letras mantinham-se balanceadas e, agora, Leaves' Eyes conseguia mais fãs com essa abertura de estilo e seus shows, também fora da Europa, faziam grande sucesso. Também foi, mais ou menos nessa época, que conheci Leaves' Eyes.

Mas o álbum que iria me conquistar de vez só sairia dois anos depois.


De certa forma, eu acho que esse foi o álbum em que mais acertaram na composição. Caiu no ponto certo e a influência folclórica mais forte combinou muito bem com o instrumental e o estilo de canto usado por Liv. Também creio que seja a atmosfera na qual Liv se conectou mais. Nesse álbum, há também um cover de To France, do Mike Oldfield. É um cover muito bom, mas talvez por se assemelhar um pouco ao original, não tenha se destacado tanto.

Finalmente, chegamos ao álbum mais recente da Leaves' Eyes: Symphonies of the Night. Lançado em 2013, é mais agressivo que os anteriores, mais imponente, mas não deixa de perder a maturidade obtida com a experimentação dos álbuns anteriores (inclusive, é possível identificar algumas características de cada um nas músicas deste). Os vídeoclipes, entretanto... bem, vamos considerar que a maioria dos videoclipes no cenário metal dificilmente são bons.


Mas e aí, a era Leaves' Eyes não acabou?

Não. E dificilmente vai acabar tão cedo; só acaba junto com o casamento da Liv com Alexander Krull. Eles, inclusive, anunciaram um novo álbum pra 2015 e não duvido que será mais genial que os outros.


Entretanto, como alguns músicos costumam fazer, uma banda só não basta pra eles. Eles precisam de uma outra coisita, que talvez dê um pouco de refresco ou explore outros estilos que entrariam em confronto com a banda (não é, senhor Raymond das "diferenças artísticas"?).

Carreira solo


A carreira solo alavancou só no pós-Theatre of Tragedy, mas já tinha um álbum lááá em 1998, chamado Deus Ex Machina, que continha um estilo diferente, em comparação aos outros de sua carreira.



O próximo CD de sua carreira solo só foi lançado em 2006; ou seja, só depois de sair do Theatre of Tragedy e depois que Leaves' Eyes já havia lançado dois álbuns. Enter My Religion tinha um ar mais romântico e suave, mas a voz de Liv ainda se adaptava ao estilo de música. Nesse álbum, tem a presença de instrumentais diferenciados e guitarras bem menos pesadas.



Skintight, de 2010, seguiu a mesma linha de composição. Talvez um pouco mais puxado pro estilo pop, mas ainda com muitas características do álbum anterior. Algumas pessoas podem estranhar e até achar ruim Liv lançar o mesmo estilo duas vezes, sendo uma cantora tão versátil. As diferenças dentro do estilo são poucas, mas ela ainda consegue fazer músicas novas e refrescantes. Muitas bandas fazem isso: marcam um estilo próprio, lançam várias músicas no mesmo, mas você não enjoa, às vezes nem nota. Entre Enter My Religion e Skintight, é a mesma coisa.



Em 2012 foi lançado um álbum que, ainda que trabalhando no mesmo estilo, conseguiu se destacar dos outros. Dentro da temática, teve mais contrastes: um ar ainda mais pop que Skintight em algumas músicas e outras mais calmas e melancólicas. Esse era o Libertine.



O álbum mais recente de Liv Kristine é Vervain, de 2014. Esse álbum quebrou a linha que era seguida nos álbuns anteriores, lembrando muito mais as composições do Leaves' Eyes, mas sem se confundir com a banda, além de conter muitas participações especiais, inclusive de outra cantora de metal com bastante tempo de carreira, Doro Pesch.

(acreditem em mim, é um pouco mais difícil encontrar vídeos desse álbum no Youtube.)

Além desses álbuns, Liv também fez várias participações especiais durante sua carreira (adivinha se teve várias com o Atrocity ou não...), incluindo com Cradle of Filth e Delain, além de ter uma indicação ao Grammy em 2005.

O conhecimento extenso de idiomas que ela tem de sua formação em Letras junto com sua habilidade em composição, o canto habilidoso e versátil e o fato de ser prolífera, tornam dela uma artista completa, junto com outras coisas que serão abordadas com as The Sirens em geral, já que é algo em comum de todas. Sem dúvidas, Liv Kristine fez uma grande contribuição pro cenário metal.

"Theatre of Tragedy acabou, mas adivinha quem ainda está aqui?"
Pra finalmente fecharmos essa primeira parte, vamos a um pequeno "trivia" de Liv:
  • Ela e o marido são vegetarianos. Woohoo for animal rights!;
  • Liv tem um filho, chamado Leon Alexander;
  • Também é bruxa. E não, Harry Potter passou um pouquinho longe do que a bruxaria realmente é;
  • Carmen Elise Espenæs é sua irmã, que também canta. Caso queiram saber mais, ela é a vocalista da banda Midnattsol e da banda Savn. Ela é conhecida por cantar junto com Liv tanto Into Your Light quanto Kråkevisa do Leaves' Eyes, mas na verdade, Carmen cantou Kråkevisa só ao vivo com Liv e a versão do álbum é por outra cantora;
  • Os idiomas que Liv estudou foram as duas variantes do norueguês, alemão, francês, irlandês, irlandês antigo, gaélico, islandês, inglês, inglês arcaico e latim.
E por hoje é só, pessoal! Não quero demorar muito pra terminar essa mensagem, então pretendo fazer até o final da semana que vem as partes 2 e 3. Aguardem até lá!

Um comentário:

  1. Gostei do teu post por que ele abordou de uma forma bem dinâmica as The Sirens (aliás, vai abordar, já que essa é só a primeira parte). Eu não sou muito fã de metal em si, mas teu post me interessou. Gostei por que teve aquele coisa de fã e ao mesmo tempo de informar quem não conhece, coisa a qual muitas vezes eu mesmo mão consigo.

    PS: espero que você nunca tenha feito fanfic delas.

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