Pular para o conteúdo principal

Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Humano ou máquina?

O Jogo da Imitação (The Imitation Game); Ano: 2014

Envolto sempre numa névoa duradoura por conta do governo, a verdadeira de história de Alan Turing era um completo mistério. Aos poucos, a partir dos anos 70 e 80, foram surgindo documentos e mais documentos que atestavam a sua já conhecida genialidade.
Ser humano sutil capaz de decodificar os mais impossíveis códigos, porém desatento aos códigos de convivência humana, assim é apresentado no filme O Jogo da Imitação, estrelado por Benedict Cumberbatch (nosso queridos Sherlock), que parece ter uma queda por personagens geniosos e peculiares.
Biografias nunca são unânimes entre o público, principalmente se tratando dos historiadores. Aqui, não foi diferente, mas é um tanto quanto estranho as reclamações que surgiram do filme, visto que é uma adaptação de um livro, que por sua vez, visa interpretar ou contar os fatos como bem entende. Houveram reclamações de familiares, que não ficaram satisfeitos com o modo como seus parentes queridos foram retratados; e de historiadores, na minha opinião xiitas, que não se satisfizeram com o modo como a homossexualidade de Alan foi representada.
Para quem já conhece Turing e se encaixe no perfil dos críticos, talvez não vá apreciar o filme tanto assim. Do contrário, será imerso numa incrível história muito bem adaptada para o meio cinematográfico, com sua devida precisão histórica e emoção ficcional. Para quem não conhece Alan Turing, o cara foi nada menos que o pai dos computadores modernos - sim, é principalmente por causa dele que digito este texto e você o lê em tempo real numa página online.

Post Recomendado: Cientistas que mudaram o mundo

O Jogo da Imitação é um filme sincero e simples. Sem muitas firulas, ele buscas retratar os fatos com exatidão ficcional . Irônico não? Mas se tratando de um longa metragem, isso se torna atraente, pois ao mesmo tempo que não tem muitos devaneios ou forçações de barra, também temos conjuntos de cenas claramente bem pensadas e diálogos ferrenhos característicos.
Alan Turing, ao inicio, parece deveras pacato e estereotipado como gênio da matemática, mas aos poucos conhecemos sua visão de mundo e claro, consequências disto. Os flashbacks com Christopher se encaixam muito bem não só na personalidade de Turing, mas no filme como um todo. Ouvir do autor da obra ao qual o filme foi baseado, que o longa não conseguiu exprimir totalmente a relação da homossexualidade do protagonista com seus feitos, é quase uma brincadeira de mau gosto. Está ali, em cada passo e motivação
de Alan: as dúvidas, incertezas e certezas, por viver tão a frente de seu tempo, inclusive em relação à liberação sexual. O grande porém disto tudo, é que a homossexualidade despida fica nas entrelinhas, mas sem deixar de criar a devida conexão com a ciência. Portanto, é irônico que o próprio autor da obra não tenha notado essas sutilezas na produção, que acima de tudo preza pelo psicológico. Pedir uma forma sexual mais escrachada, é tomar parte da interpretação.

Apesar do foco ser em Alan Turing, senti uma necessidade de maior desenvolvimento em torno de Joan e Hugh, pois mesmo que importantes, ao fim se mostram apenas como muletas. O filme como um todo soa indeciso, quase como se levasse um fardo nas costas para redimir o gênio. Esse fardo acaba encurtando a história, que segue genial em todo seu plot principal, mas logo quando começa a ficar mais explicita ou dramática, decide suspender-se. O roteiro se apoia nos diálogos descontraídos e na direção de tom fantasioso, pois o enredo em si é bem simples e até previsível, mas vale-se pelo clímax que forma e nas reviravoltas realistas encaixadas como um quebra-cabeça. O gênio na vida real, enfim, não encontra seu louvor pessoal.

A imersão sobressai-se principalmente pela fidelidade histórica e pelo visual, seja nas falas ou nos cenários.
Tudo isto acaba abrindo alas confortavelmente para as atuações, que estão incríveis. As personagens funcionam pois a química dos atores é imensa e mesmo individualmente, cada um consegue chamar a atenção para si, seja nos trejeitos sherlockianos ou lannisters autoritários.
Benedict ainda que leve Sherlock no rosto, difere e muito sua atuação; Suas expressões podem nos emocionar de diferentes formas. É incrível ver tamanho esforço em tela.

Ao tentar agradar o grande público, O Jogo da Imitação acerta em cheio por simplesmente contar uma boa história. Confesso que senti falta de um pouco mais de explicitez, coisa comum humana, mas tudo isto é posto de lado ao comprarmos o drama de Turing e recebermos em toda sua casualidade, uma seriedade devastadora que não vem munida de lados, apenas a verdade nua e crua, mas claro, envolta num charmoso casaco cinematográfico.

Agora, julgue você: humano ou máquina?

El Psy Congroo.


Leitura recomendada: Alan Turing recebeu perdão póstumo, mas ainda há milhares de vítimas daquela lei terrível

Comentários

Postagens mais visitadas