sábado, 28 de fevereiro de 2015

Daft Punk e a música como dever de casa

Análise: Daft Punk, Homework


Daft Punk é tido hoje como um dos maiores influenciadores da música eletrônica, principalmente no segmento house music. Porém, os “punks bobos” não começaram diretamente ligados à música eletrônica em si. Este artigo pretende contar um pouco da simples história da dupla de robôs, e fazer uma análise (quase recomendação) do primeiro albúm, Homework.
Pois então, se acomode na cadeira, pegue os óculos para não fuder com a vista e vamo lá galera! o/

PUNKS BOBOS

Em 1987, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo se conhecem na Lycée Carnot, uma escola secundária de Londres. Logo viraram bons amigos, compartilhando o interesse por música e entretenimento em geral, como filmes dos anos 60 e 70.
Gostavam principalmente de rock, voltados mais para o estilo synthpop (coisa que é possível notar em sua música). Na época da escola mesmo, começaram a gravar algumas demo tracks com um pessoal, acabando por formar em 1992 o Darlin’.
O Darlin’ nada mais era que uma banda convencional, com um pouco de punk, mas flertando com a eletrônica, algo como dito lá em cima – synthpop. Mas não era de todo assim, por se tratar de ser um pouco mais orgânico, nos estilo dos Beach Boys.
Homem-Christo tocava guitarra (instrumento que não largou mais) e Bangalter baixo e, junto deles uniu- se Laurent Brancowitz como baterista.


A Stereolab liberou as músicas no EP Duophonic Records, abriram alguns shows e... Pronto! A banda simples durou meros 6 meses.

"O rock que nós fizemos era uma coisa regular, é o que penso. Foi algo breve, talvez seis meses, quatro canções e 'dois flashs'. Foi isso."disse Bangalter.

Após isso, Brancowitz continuou na música, dando segmento ao grupo de rock que criara: ZzZzZzzzZzZz... Opa! Qual o nome mesmo? Ah, é ‘Phoenix’.
Enquanto isso, Bangalter e Homem-Christo decidiram se embrenhar pelo mundo da eletrônica.
Um artigo na melody maker chamou os garotos do Darlin’ de “um bando de punks bobos” (em inglês, Daft Punk). A dupla ao invés de ignorar a crítica negativa, decidiu usá-la como nome para o novo projeto. Em nota, uma vez disseram:

 "nós nos esforçamos por muito tempo para encontrar o nome Darlin'. Já este foi rápido."

Com novos equipamento digitais, estilo e experimentações diferentes, estava formado o Daft Punk.



VIRGIN RECORDS
Homework começou a ser gravado em 1996 e foi lançado em 1997. Mas o caminho para o sucesso não foi tão fácil, começando pela sorte e esforço. Em 1993 o Daft Punk participava de uma rave na EuroDisney, quando encontraram Stuart Macmillan (co-fundador da Soma Quality Records). O duo então decidiu dar sua fita demo à Macmillan. Logo em 1994, estavam lançando o primeiro single em edição limitada: The New Wave. Onde, também continha um mix final de The New Wave, Alive. Em 1995, voltaram ao estúdio para gravar Da Funk e Rollin’ & Scratchin’, se tornando o primeiro single da dupla bem sucedido.
Os Chemical Brothers utilizaram as faixas em Dj sets. No mesmo ano, pediram para que o Daft Punk fizesse um remix do single Life is Sweet e abrissem os shows da turnê no Reino Unido.
Em setembro de 1996 fecharam contrato com a Virgin Records. A saída da Soma foi notada por Richard Brown que disse:

Ficamos obviamente tristes por perdê-los para a Virgin, mas eles tiveram a oportunidade de ir bem longe, o que eles queriam, e não é muito frequente uma banda ter essa chance após dois singles. Nós estamos felizes por eles"

O álbum foi mixado e gravado no seu próprio estúdio, Daft House, em Paris, França. Foi masterizado por Nilesh Patel no estúdio de Londres The Exchange.
Um pouco antes, a Virgin decidiu relançar Da Funk, em 1996, tendo no lado B Musique.
Finalmente, em 17 de janeiro de 1997, chegava às lojas o primeiro álbum do Daft Punk: Homework.



DEVER DE CASA


álbum inicia com Daftendirekt. A música foi gravada ao vivo, no Fuse Party em Gante, e do começo ao fim a frase “Dafunk back to the punk come on” é repetida. Como dito pelo Daft Punk, é uma faixa ao vivo, tendo um estilo mais techno. Apesar da repetição na letra, fica claro como a dupla trabalha.
Temos duas camadas, na primeira ficam as partes repetitivas e simples e, na segunda as experimentações, quase uma viagem. A batida da encaixe na música seguinte.

WDPK 83.7 FM é uma clara homenagem às rádios fm dos Estados Unidos, com o mesmo refrão de Musique.

Revolution 909 é uma reflexão sobre o governo francês em relação a cena rave. Quando questionado sobre as motivações das reflexões, Bangalter disse:

 "Eles fingem que é droga, mas não acho que é a única coisa. Há drogas em toda a parte, mas eles provavelmente não teriam um problema se a mesma coisa estivesse acontecendo em um show de rock, porque isso é o que eles entendem"

A música segue o estilo simples da batida, com diversas experimentações em meio à música, inclusive o som do que seria policiais falando. Parece ser uma mistura do techno comum das raves, com uma pitada de música latina.

Logo que termina Revolution 909, inicia-se o funk acid Da Funk. A música tem elementos de hip-hop cru, junto com um riff de guitarra identificável. Assim, a música inteira é calcada nessas duas características, que acabam por nos lembrar dos centros urbanos e periferias dos Estados Unidos, onde havia sempre aqueles “manos” carregando um aparelho de som gigantesco no ombro. Da Funk acabou por se tornar um clássico dos anos 90.

Bangalter disse considerar Phoenix uma faixa importante, mas não mais importante que qualquer uma das outras faixas. É possível notar uma atmosfera diferente na música. O conceito criado pelo Daft Punk era o de uma faixa de house music com força gospel. E é justamente o que acontece aqui, onde podemos facilmente mentalizar uma estranha seita ou ritual ao som de Phoenix.

Fresh, em contraste, é uma faixa alegre e luminosa, feita, de acordo com o próprio Daft Punk, com uma estrutura cômica.
Primeiro ouvimos o som do mar, depois o som de guitarra e aos poucos as batidas, com uma voz que parece se misturar em meio às ondas. A música termina com as batidas, voz e guitarra desaparecendo, ficando apenas o som do mar. Basicamente uma festa feliz e divertida na praia, ou dentro da própria água.

Around The World é uma música com linha de baixo semelhante à Good Times, do Chic. É dançante, um verdadeiro house com influências na música dance dos anos 80. Pode ser considerado outro clássico dos anos 90, alavancado pelo divertidíssimo e estranho clipe. Assim como o vídeo, é como se cada instrumento na música estivesse em seu próprio rumo, dando a dita volta ao mundo.

Rollin' & Scratchin' é mais uma simples faixa com veia techno, fazendo exatamente o que diz o título. Tem uma atmosfera crescente, totalmente de outro mundo, que deve arrebentar em qualquer rave. O Daft Punk não se prende só em serem alunos, mas também em ensinar.

Diferente da faixa anterior, que é uma viagem alucinótica no scratched, Teachers é uma homenagen aos “professores” do duo.
Sendo focado principalmente nos pioneiros do techno em Detroit e cenas da Chicago House, Teachers, como já dito, é uma clara homenagem, com o som típico da crescente experimentação techno dos anos 80.

High Fidelity é uma amostra complexa da canção Just the Way You Are, de Billy Joel, usada como sample. É como se fosse uma canção de alegria e rejeição, sem uma mensagem clara ou propriamente dita.

Rock ‘n’ Roll é outra experimentação, com uma batida simples e som ao longo da música que lembra uma interferência. É dançante, mas voltada para o techno, sem muito sentido(claro) da relação com o título.

Oh Yeah é mais uma homenagem, com características do DJ Deelat e DJ Crabbe. A letra diz: “todo mundo dança gritando no baile”. Tem alguns elementos de hip-hop na baitda.
Aos poucos, fica perceptível que o disco vai ficando, digamos, mais “pesado”; intragável para ouvidos pouco acostumados com a house music e techno, principalmente por causa das estranhas experimentações, que aqui são variáveis da comum música techno das raves. Quase um apanhado e transformação.

Burnin’, assim como o título, é a representação de um fogo crescente, até ele tomar conta e queimar tudo. – então inicia-se a festa. Seria como a representação do espirito e euforia. Uma chama acesa sem tempo certo para extinguir-se.
Em 1996 foi lançado um single sem crédito ao artista, onde todos achavam ter sido feito por produtores inexistentes.  Era Indo Silver Club, música que usa como sample Hot Shot, de Karen Young.

Alive, como já dito anteriormente, é o mix ou versão final de The New Wave. Com uma batida extremamente forte, a música segue-se em tom crescente e repetitivo, dando espaço para a música final.

Funk Ad nada mais é que uma parte de Da Funk invertido. Talvez uma mera brincadeira? Ou algo bem pensado? Não sabemos, mas que termina divertida e epicamente bem o disco, disso tenho certeza.


CONCLUSÃO


Homework é um trabalho de casa bem feito, sendo totalmente sincero, mostrando claramente quem é o Daft Punk. Serve como uma variação dos comuns estilos estabelecidos da eletrônica, buscando inovar e homenagear, sem deixar de ser original. Mesmo em meio às “falhas”, diferente de Human After All, as músicas são incríveis com o som dos robôs formando uma atmosfera humana, dentro do enraizado techno.
A mistura de funk, house, techno e acid, não é de modo nenhum organizada. Muito pelo contrário, é como uma rave louca, onde os sons se embrenham. Isso é bom.
Talvez o melhor trabalho dos punks bobos, onde podemos ver sua essência. Discovery é uma volta nas memórias da dupla, Random Access Memories novamente uma ida às memórias do duo, mas dessa vez na dance music dos anos 80. Homework nada mais é que o “presente”, com um som típico, porém revolucionário.

El Psy Congroo.
Seja o primeiro a comentar.

Postar um comentário