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Destaques

Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

"Aqui não é GTA, é pior, é Grajaú"



Criolo; Convoque seu Buda
Ano: 2014
Gênero: rap; samba; MPB; música africana.


No seu terceiro album de estúdio, o rapper (ou MC) paulistano Criolo, demonstra todo o seu pessimismo e visão critica frente a sociedade brasileira. Depois de Nó na Orelha, um disco que apesar das criticas, tem um tom de despedida e até esperança, aqui não parece haver lugar para uma visão mais alegre do mundo. Adotando mais uma vez um sistema diversificado - hora temos um rap, hora temos um samba - a linguagem de Criolo evolui de um modo descomunal, o que pode ser visto como um defeito, por talvez, haver uma dificuldade em transmitir sua mensagem para a massa. Podemos sentir claramente os sentimentos que o cantor quer passar, porém, as letras que vão e vem num genial jogo de palavras e referências, passam despercebidas ao público mais desatento. O trunfo não só do album, mas do próprio estilo do Criolo, é moldar todo o seu discurso em um ritmo dançante e bem produzido, fácil de ser cantado. Então, Convoque seu Buda funciona tanto como música chiclete sem sentido, quanto música minimalista complexa.
As músicas são pesadas por levarem bastante conteúdo - pode-se extrair muito conhecimento de apenas uma frase. Pois então, nesse jogo incrível de referências, Criolo brinca a todo tempo com o ouvinte e cria o que parece ser um labirinto não só de sonoridade - uma letra que aparentemente pode ser simples, conforme adentra-se em busca de seu sentido (vulgo pesquisa), torna tudo um universo.
Imagino que Convoque seu Buda é o quarto de Criolo, e ele nos leva para conhecê-lo e logo, a sociedade ao redor.

"Hoje
Não tem boca pra se beijar
Não tem alma pra se lavar
Não tem vida pra se viver
Mas tem dinheiro pra se contar
De terno e gravata, teu pai agradar
Levar o teu filho pro mundo perder
É o céu da boca do inferno esperando você
É o céu da boca do inferno esperando"

 (trecho da música, Esquiva de Esgrima)

Alguns temas passam muitas vezes como repetitivos, mas sinceramente não julgo. Como músico e formador de opinião, é necessário em determinados momentos bater na mesma tecla. Como o próprio rapper diz, o importante é como e por que se faz determinada coisa. Então não basta falar de crack, desigualdade social e manifestações, ou fazer um samba, reggae e batuque africano - é preciso ter-se uma base ou propósito, e Criolo nos envereda por esse caminho muito bem. Degustar deste disco é para todos e para poucos: só quem tiver a vontade e atenção de atentar-se às letras e buscar o conhecimento, conseguirá em plenitude compreender o santo Criolense.

Os ritmos, diferentes das letras, são alegres e dançantes e carregam também referências. A música do MC forma uma corda bem firme, cheia de linhas - cada referência, clara para alguns e como sempre dependendo do ponto de vista, forma um som original. O que me surpreendeu foi a destreza de Criolo de sair da sua zona de conforto tão radicalmente em alguns momentos, sem deixar de estar totalmente a vontade. Ainda Há Tempo é totalmente rap; Nó na Orelha flerta com outros ritmos, mas ainda sim tem uma alma também do rap; já Convoque seu Buda, ainda que o rap domine, é difícil denominá-lo como somente isso - a melhor denominação é eclético, ou brasileiro. A sonoridade, que obviamente se tornou mais complexa, segue um caminho orgânico - isso é ótimo, pois os batuques fortes tem mais impacto que algo artificialmente produzido. Esse som vem com o dom da energia de levantar as massas.
Acredito que o maior flerte seja com a MPB. A África se torna mais forte no som de Criolo, mas referências como Chico Buarque, continuam firmes e visivelmente profundas.

Casa de Papelão
 

E Construção, de Chico Buarque
Como eu já disse, o tom desse disco é diferente do anterior. Enquanto Nó na Orelha era uma despedida, Convoque seu Buda é uma renovação e visão pessimista, ou melhor, duramente realista da sociedade, mostrando-se tipicamente brasileiro.

"Uns cara que cola pra ver se cata mina
Umas mina que cola e atrapalha ativista
Mudar o mundo do sofá da sala e postar no insta
E se a maconha for da boa que se foda a ideologia"

 (trecho da música, Convoque seu Buda)

"A alma flutua
Leite, a criança quer beber
Lázaro, alguém nos ajude a entender"
(trecho da música, Cartão de Visita. Observação importante para toda a zoeira da internet e essa resposta inteligente a quem não entendeu o discurso do cantor)

A mídia segue como cega diante dos problemas tão visíveis ao nosso dia-a-dia - desde a desordenada crescente economia, ao funk ostentação irônico em sua essência. O que torna Convoque seu Buda interessante é o fato de não tomar partidos e buscar apenas uma boa música com uma mensagem sincera, ainda que necessite de uma atenção maior. Se outras músicas do Criolo soam, ainda na visão superficial, coerentes, aqui a ignorância dá a impressão de desconexo - ledo engano; o caldo dessa obra transborda aos ouvidos.
O rapper então assume o posto de voz. Por vir da massa, falar da classe baixa e cutucar a classe alta, Criolo parece um comediante - surpreende por dizer aquilo que vemos, mas não falamos, apenas pensamos ou deixamos passar no corriqueiro dia-a-dia da metrópole maravilhosa. São Paulo é uma cidade, mas ao se prender em suas referências, o Doido transforma o seu em universal; a loucura em critica; o desconexo em verdade.

El Psy Congroo.

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