Pular para o conteúdo principal

Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

"Aqui não é GTA, é pior, é Grajaú"



Criolo; Convoque seu Buda
Ano: 2014
Gênero: rap; samba; MPB; música africana.


No seu terceiro album de estúdio, o rapper (ou MC) paulistano Criolo, demonstra todo o seu pessimismo e visão critica frente a sociedade brasileira. Depois de Nó na Orelha, um disco que apesar das criticas, tem um tom de despedida e até esperança, aqui não parece haver lugar para uma visão mais alegre do mundo. Adotando mais uma vez um sistema diversificado - hora temos um rap, hora temos um samba - a linguagem de Criolo evolui de um modo descomunal, o que pode ser visto como um defeito, por talvez, haver uma dificuldade em transmitir sua mensagem para a massa. Podemos sentir claramente os sentimentos que o cantor quer passar, porém, as letras que vão e vem num genial jogo de palavras e referências, passam despercebidas ao público mais desatento. O trunfo não só do album, mas do próprio estilo do Criolo, é moldar todo o seu discurso em um ritmo dançante e bem produzido, fácil de ser cantado. Então, Convoque seu Buda funciona tanto como música chiclete sem sentido, quanto música minimalista complexa.
As músicas são pesadas por levarem bastante conteúdo - pode-se extrair muito conhecimento de apenas uma frase. Pois então, nesse jogo incrível de referências, Criolo brinca a todo tempo com o ouvinte e cria o que parece ser um labirinto não só de sonoridade - uma letra que aparentemente pode ser simples, conforme adentra-se em busca de seu sentido (vulgo pesquisa), torna tudo um universo.
Imagino que Convoque seu Buda é o quarto de Criolo, e ele nos leva para conhecê-lo e logo, a sociedade ao redor.

"Hoje
Não tem boca pra se beijar
Não tem alma pra se lavar
Não tem vida pra se viver
Mas tem dinheiro pra se contar
De terno e gravata, teu pai agradar
Levar o teu filho pro mundo perder
É o céu da boca do inferno esperando você
É o céu da boca do inferno esperando"

 (trecho da música, Esquiva de Esgrima)

Alguns temas passam muitas vezes como repetitivos, mas sinceramente não julgo. Como músico e formador de opinião, é necessário em determinados momentos bater na mesma tecla. Como o próprio rapper diz, o importante é como e por que se faz determinada coisa. Então não basta falar de crack, desigualdade social e manifestações, ou fazer um samba, reggae e batuque africano - é preciso ter-se uma base ou propósito, e Criolo nos envereda por esse caminho muito bem. Degustar deste disco é para todos e para poucos: só quem tiver a vontade e atenção de atentar-se às letras e buscar o conhecimento, conseguirá em plenitude compreender o santo Criolense.

Os ritmos, diferentes das letras, são alegres e dançantes e carregam também referências. A música do MC forma uma corda bem firme, cheia de linhas - cada referência, clara para alguns e como sempre dependendo do ponto de vista, forma um som original. O que me surpreendeu foi a destreza de Criolo de sair da sua zona de conforto tão radicalmente em alguns momentos, sem deixar de estar totalmente a vontade. Ainda Há Tempo é totalmente rap; Nó na Orelha flerta com outros ritmos, mas ainda sim tem uma alma também do rap; já Convoque seu Buda, ainda que o rap domine, é difícil denominá-lo como somente isso - a melhor denominação é eclético, ou brasileiro. A sonoridade, que obviamente se tornou mais complexa, segue um caminho orgânico - isso é ótimo, pois os batuques fortes tem mais impacto que algo artificialmente produzido. Esse som vem com o dom da energia de levantar as massas.
Acredito que o maior flerte seja com a MPB. A África se torna mais forte no som de Criolo, mas referências como Chico Buarque, continuam firmes e visivelmente profundas.

Casa de Papelão
 

E Construção, de Chico Buarque
Como eu já disse, o tom desse disco é diferente do anterior. Enquanto Nó na Orelha era uma despedida, Convoque seu Buda é uma renovação e visão pessimista, ou melhor, duramente realista da sociedade, mostrando-se tipicamente brasileiro.

"Uns cara que cola pra ver se cata mina
Umas mina que cola e atrapalha ativista
Mudar o mundo do sofá da sala e postar no insta
E se a maconha for da boa que se foda a ideologia"

 (trecho da música, Convoque seu Buda)

"A alma flutua
Leite, a criança quer beber
Lázaro, alguém nos ajude a entender"
(trecho da música, Cartão de Visita. Observação importante para toda a zoeira da internet e essa resposta inteligente a quem não entendeu o discurso do cantor)

A mídia segue como cega diante dos problemas tão visíveis ao nosso dia-a-dia - desde a desordenada crescente economia, ao funk ostentação irônico em sua essência. O que torna Convoque seu Buda interessante é o fato de não tomar partidos e buscar apenas uma boa música com uma mensagem sincera, ainda que necessite de uma atenção maior. Se outras músicas do Criolo soam, ainda na visão superficial, coerentes, aqui a ignorância dá a impressão de desconexo - ledo engano; o caldo dessa obra transborda aos ouvidos.
O rapper então assume o posto de voz. Por vir da massa, falar da classe baixa e cutucar a classe alta, Criolo parece um comediante - surpreende por dizer aquilo que vemos, mas não falamos, apenas pensamos ou deixamos passar no corriqueiro dia-a-dia da metrópole maravilhosa. São Paulo é uma cidade, mas ao se prender em suas referências, o Doido transforma o seu em universal; a loucura em critica; o desconexo em verdade.

El Psy Congroo.

Comentários

Postagens mais visitadas