sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Afinal, amar ao próximo é tão demodê

Resenha: O Monge e o Executivo
por Maeister Atsok


“25. Levantando-se um doutor da lei, experimentou-o, dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 26. Respondeu-lhe Jesus: Que é o que está escrito na Lei? Como lês tu? 27. Respondeu ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de toda a tua força e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. 28. Replicou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás. 29. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? 30. Prosseguindo Jesus, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores que, depois de o despirem e espancarem, se retiraram, deixando-o meio morto. 31. Por uma coincidência descia por aquele caminho um sacerdote; quando o viu, passou de largo. 32. Do mesmo modo também um levita, chegando ao lugar e vendo-o, passou de largo. 33. Um samaritano, porém, que ia de viagem, aproximou-se do homem e, vendo-o, teve compaixão dele. 34. Chegando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma hospedaria e tratou-o. 35. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse: Trata-o e quanto gastares de mais, na volta eu te pagarei. 36. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? 37. Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai-te, e faze tu o mesmo. “ – (A Bíblia Sagrada, Novo Testamento. Lucas, capítulo X)

Sob esta influência é que o livro O Monge e o Executivo se baseia para contar uma história motivadora cheia de passagens alegóricas. Não é para menos, já que é uma autoajuda, daquelas que usam do herói mais antigo da humanidade – Jesus Cristo – para motivar e passar suas mensagens ao leitor.
Mas diante disto, a tentativa de aproximação cria uma narrativa ficcional saindo um pouco dos campos da autoajuda, acabando por aprofundar as ditas “mensagens” e, ao mesmo tempo criar um enredo infantil com personagens fracas que se valem pelo aspecto forte dado à elas.

John Daily toma o papel do típico americano, que apesar de aparentemente ter uma vida boa, tudo tende de repente a desmoronar sem nenhum motivo aparente. Gerente-geral de uma grande indústria de vidros bem sucedida, casado com Rachel e pai de um casal (John Jr e Sara), John não é o simples homem perdido na vida. Ao contrário, ele lutou pelo o que tem, alcançando a comodidade. Mas a comodidade tem suas consequências, que muitas vezes passam despercebidas, mesmo para os mais atentos.
É interessante notar que John está no segundo estágio de sua vida. Ele já alcançou o que tanto almejava, mas ainda sim parece faltar algo. Algo que seus olhos não veem mas seu coração sente.
Tarde demais para perceber e tomar uma atitude, Rachel, sua esposa, não está feliz com o casamento mesmo tendo todas as condições para que não haja descontentamento. O relacionamento de John com os filhos também está abalado, havendo diversos desentendimentos com estes. Sem contar a campanha que os trabalhadores fazem para que o Sindicato os represente. Daily, depois de tantas vezes fechar os olhos para os problemas, decide por abri-los. Aconselhado por seu pastor, acaba concordando com Rachel em ir a um retiro para que possa organizar sua vida, no mosteiro cristão João da Cruz.
É aí que a história toma seu pontapé inicial. É fácil prever o que acontece e o padrão que irá se seguir por todo o livro – um mosteiro, várias personagens e reuniões: prato cheio para diálogos, onde o discurso do autor é passado, de forma a ter exemplos práticos auxiliando-o.
O dito mosteiro João da Cruz tem trinta a quarenta frades que vivem centrados em três premissas: oração, trabalho e silêncio. Esta simples curiosidade pode servir como critica a sociedade, que segue apenas um dos três itens, contrariando todos os outros. John Daily por sua vez, está inserido nesta sociedade caótica, em que o trabalho é tudo. Como se sobressair? É quando devemos parar e observar, para podermos chegar a outros extremos, afim de transformar a situação que se segue.
O mosteiro é uma clara diferença. Isso pode ser como uma atitude: para evoluir é necessário ser radical. Não imediatamente e visualmente, mas dentro si, buscando pensamentos que possam leva-lo a novos horizontes. Mas diferente do enredo ficcional, na vida real nada é ao acaso. Isso pode ser um problema, já que como em parte autoajuda, ele tem que ser crível, enquanto a parte ficcional se encarrega do contrário disto.
Gulliver (em As Viagens de Gulliver, do holandês Jonathan Swift) viaja numa aventura em alto mar, quase morre, mas continua e encontra uma civilização diferente. Isso pode ser uma mensagem de motivação, para o leitor absorver e sempre ir em frente. Ponto – isso é ficção.
Quando Gulliver é colocado na vida real, sua história não dá nem ao menos um livro – ele simplesmente morre.
Portanto, O Monge e o Executivo funciona mais como um impulso de sentimentos do que algo a realmente se seguir. Bonito? Sim. Prático? Talvez. Dentro das condições certas, ou melhor, diante do leitor certo, o livro pode ser um aprendizado e tanto. Mas sendo simples e direto, o livro só é bom por quem está lendo criar dentro de si sua própria história, do que o próprio enredo que segue-se.

“O rosto enrugado e os cabelos brancos eram de um velho, mas os olhos e o espírito cintilavam e emanavam uma energia que eu só experimentara quando criança”

A primeira personagem importante que conhecemos já no dito retiro é Simeão, ou melhor, Leonard Hoffman, um dos impulsionadores que levaram John a ir ao mosteiro. Sem a consciência de quem de repente aparece para lavar o banheiro de seu quarto, Daily se surpreende ao ver o lendário líder dos negócios ali na sua frente, tão vulnerável. Aqui percebemos à que o livro será calcado: no princípio de que um bom líder deve antes de comandar, servir.
Simeão tem toda uma atmosfera mística em volta, que lhe traz uma perfeição aos moldes de Jesus Cristo. Desde o discurso em que enfatiza que é um ser humano como qualquer outro, até suas explicações firmadas no dia-a-dia. Com isto, o autor cria uma personagem que certamente serve de espelhamento, mas que apesar de dizer o contrário várias vezes, não é de todo humano.
John Daily como qualquer personagem principiante segue incrédulo, sem muita fé sobre o curso que irá fazer e toda a ideia maluca de ir num retiro cristão. A figura de Simeão, que persegue a vida do homem desde a sua infância, serve apenas para tornar Len Hoffman mais interessante, pois enquanto elemento importante na história, de nada importa.
 As reuniões, ou melhor, as aulas, são propositalmente simples, sendo isto algo que enriquece a obra. O cenário criado traz antes de tudo inspiração e o local simples enfatiza o conteúdo que será passado.  Enquanto sala de aula normal, você mal imagina o que pode ser ensinado.
Ficamos encabulados com o que talvez possa acontecer. A primeira cena que inicia o encontro trata logo de dar um “murro”, atiçando a atenção do leitor.

PERSONAGENS

Neste momento adentra as personagens que incrementarão a obra. Representando em sua essência os tipos de pessoas, outros cinco líderes de diferentes áreas tem seu lugar de fala, mesmo que alguns sejam mais objetos do que pessoas.
Lee – O Pregador -, é o pastor que tem certos dogmas por causa de sua religião, mas ao contrário do convencional, acaba por ser quem tem mais a mente aberta, discutindo e entendendo os ensinamentos coerentemente.
Greg – O Sargento -, é quem toma o papel de cético da turma. Disposto a aprender, ao mesmo tempo que tem seus paradigmas combatidos, tem um desenvolvimento interessante, mas que infelizmente é apressado e cortado afim de atender aos requisitos da autoajuda e seu objetivo de apenas ensinar, não sendo realmente alguém.
Teresa – A Diretora -, apesar de conseguir entender a maioria dos ensinamentos, é usada de forma diversificada para ir de contra ao que é dito, trazendo novas conclusões. Por trabalhar com crianças, tem uma vivência de líder diferente dos outros.
Chris – A Treinadora -, também bastante contestadora, junto de Teresa, tem o papel de uma mulher com posição firme, por treinar o time de basquete de Michigan. É descrita como bastante atraente.
Kim – A Enfermeira -, é a humana que toma os ensinamentos de Deus e consegue passá-los para os meros mortais. Tem um certo affair com John, que serve para contribuir com o enredo, logo sendo esquecido.

A ESCRITA

O livro tem uma escrita simples, comum do gênero. O autor não se expande descrevendo detalhadamente cenários ou sentimentos, pois o que importa aqui são as mensagens. Apesar disto, uma atmosfera interessante consegue se formar ao longo da leitura, impulsionada pelos sentimentos e assuntos debatidos em diálogos. Atitudes comuns à maioria das pessoas são usadas como exemplos, aproximando o leitor das personagens, já que estas tem justamente essa finalidade: de algum modo trazer uma identificação.
Esta escrita simples consegue ser atrativa, pois não exige do leitor uma bagagem literária para entender os conceitos descritos, porém pode trazer estranhamento para muitos, que se veem numa obra de tema adulto altamente infantilizada, quase um conto de fadas.
Pode-se fazer algo simples, direto e acima de tudo autoajuda, com profundidade. Por exemplo, temos Paulo Coelho, autor que escreve no mesmo gênero, mas com a profundidade necessária (ou limite) do estilo. James C. Hunter procura ensinar o leitor, mas sem a pretensão de fazer uma história coerente. Seu trunfo está em focar no principal sem dar continuações, deixando espaço principalmente para devaneios que ficam a cargo de quem está lendo. Apesar do livro inteiro ser um enorme “conto infantil”, o final (mesmo aparentando) não se prende ao clichê “...e viveram felizes para sempre”, deixando em aberto o destino de Daily, mas acabando por esquecer as outras personagens que poderiam ter um espaço maior.

ENSINAMENTOS

É aqui onde o livro consegue se sobressair, principalmente pelo autor ser especialista no assunto. Com exemplos práticos que são facilmente associados com o nosso dia-a-dia, os alunos debatem de várias formas suas percepções sobre o tema abordado, indo desde paradigmas até amor ágape. O “truque” da glamorização de coisas tão mundanas está em desconstruí-las.
Primeiramente vemos um diálogo qualquer. Depois somos apresentados ao assunto do capítulo. Então, as opiniões das personagens entram em cena. John pensa algo que talvez seja possível, Greg diz algo exorbitantemente contra o assunto, Teresa discorda e coloca em pauta argumentos, então Simeão adentra concordando com quem está mais plausível colocando um “porém” – sua explicação se inicia. É nesse loop “infinito” que continuam os capítulos, de forma original, mas previsível. O que acaba importando mesmo são as ideias, que parecem tão óbvias, mas que dificilmente conseguiríamos chegar até elas.
Deste modo fica perceptível o crescimento dos alunos, que conforme vão surgindo os assuntos, conseguem chegar à conclusão sem a ajuda de Simeão.


CONCLUSÃO

O Monge e o Executivo é um livro certamente interessante e essencial para quem quer se tornar líder em qualquer área. Muito mais que algo voltado para os administradores, o livro busca não ser elitista tendo mais do que meros ensinamentos para o meio profissional; são ensinamentos para a vida.
Porém, enquanto história ficcional é fraco. Seu tema adulto fica pequeno com a linguagem infantil, que se transforma numa “historinha”. As personagens são vazias, servindo apenas de objetos impulsionadores ou explicativos. Um personagem deve ser mais do que uma imagem ou descrição; um personagem deve ser uma pessoa: com alma, opinião e sentimentos. Aqui isto não acontece, sendo tudo muito artificial.
Mas a construção dos capítulos, que funcionam baseados em plots, é interessante. A genial desconstrução dos paradigmas, de coisas que muitas vezes aprendemos na infância, é o atrativo junto da escrita simplista.
Jesus pode ser o maior herói da humanidade, mas lembre-se: há tantas outras religiões. Quem dirá com toda a certeza qual delas está certa?
Fechando os olhos para o enredo superficial sem o trabalho de ser profundo, a leitura é aconchegante, cheia de mensagens fortes. Com começo e meio, o erro de Hunter está em ir atrás da caça com coisas demais. Coincidir autoajuda com uma história decente é algo difícil de se fazer, que necessita das ferramentas certas. Preso numa árvore, o caçador pende entre o lado direito e esquerdo, escolhendo o mais fácil, que acaba fazendo-o cair. Só que por sorte, ou experiência, ele consegue se virar, empunhar a arma em tempo e acertar a presa.
Mas a caça, mesmo ferida, continua viva. 

El Psy Congroo. 


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