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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

A trágica Broadchurch

Broadchurch é uma série inglesa policial, lançada no ano de 2013. Confesso que decidi acompanhar inicialmente pelo rostinho do nosso querido David Tennant ("Allons-y!"), mas antes mesmo de dar uma olhada, dei uma pesquisada e me surpreendi com os comentários; não que eu esperasse algo ruim, apenas normal. Mas, decidi verificar por mim mesmo se isso tudo era hype ou algo que valia-se por si mesmo. Bom, ainda que eu tivesse uma ideia do que seria, minha surpresa foi tamanha ao constatar a qualidade do seriado.
O ponto qualitativo que fica logo evidente são as atuações. Com atores conhecidos de quem acompanha seriados britânicos, Broadchurch preza pelo drama coerente, sem firulas ou exageros ilusórios.

A trama começa de modo comum à quem acompanha seriados policiais: ocorreu um assassinato - quem é o culpado?
O interessante mesmo de Broadchurch é sua ambientação. Não basta haver um assassinato, ele tem de acontecer numa cidade pequena e perfeita, onde todos se conhecem e vivem uma vida pacata e feliz. Visto isto, o roteiro acaba assemelhando-se muito às tramas geniais de Agatha Christie, onde conhecemos diversos personagens e todos, sem exceção, são possíveis culpados. O clima, portanto, é bastante denso, pois assim que a investigação inicia-se, a aparente bela cidade desmancha sua maquiagem e transparece todos os seus segredos: dramas familiares que tocam a todos, num mundo totalmente crível.
Não somente a investigação e o crescente mistério são o principal, mas também as histórias enterradas. Todos tem algo para contar nesse lugar perfeito - todos provaram, de um jeito ou de outro, a maçã de Eva. Alec Hardy (David Tennant) é o fio condutor que leva ao drama pessoal de cada um, que à primeira vista pode parecer insensível, mas acaba sendo o mais sensato em toda essa loucura tipicamente humana.

O desenvolvimento da história por inteira é inteligente, pois é muito bem planejada desde o inicio, com pistas para todos os lados e afim de brincarem com o telespectador e claro, serem uma trapaça para nos enganar. Talvez o final possa ser óbvio para os íntimos das histórias policiais, mas ele é munido de uma carga dramática absurda facilmente absorvível e um decorrer de ações crescentemente eletrizantes, tratando de prender a atenção do espectador do começo ao fim. Apesar dos 8 episódios de, mais ou menos, 45 minutos, tudo decorre de forma tão fluida e planejada que mal percebermos, nos instigando sempre a ir em frente para saber a resolução.

A definição mais simples e sincera para Broadchurch seria:  Game of Thrones policial. Assim como a grande série de fantasia, todos estão fadados ao declínio, aliás, para ser mais exato, todo estão em declínio.
Outro ponto interessante é que diferentemente das séries mais recentes do tipo, como Sherlock,não há uma busca pelo absurdo ou fantasioso - ao contrário, a série busca um retrato sincero de uma investigação policial, sem frescuras ou exageros, a coerência é enorme principalmente em relação a visão familiar de toda a coisa - nunca vi uma tragédia tão bem retratada; não falo do caso em si, mas das consequências. Não é a simples resolução de um assassinato; muito mais que isso, a série busca ser o todo - as causas, o decorrer e as consequências: este último fator muito mais (e otimamente bem) enfatizado.

Tendo em mente o roteiro incrível, que além de montar um interessante quebra-cabeça fiel à realidade, criando um drama tão original, também acentua-se frente as atuações estupendas. O elenco tem uma forte química que não só funciona, mas encaixa perfeitamente com a ambientação (cidade litorânea) e a fotografia imersiva, muito bonita por conseguir retratar realisticamente e ao mesmo tempo sentimentalmente, toda a história.

Tenho que enfatizar também David Tennat: não a toa, sua presença foi imediata no remake americano. Seus trejeitos já conhecidos, destoam numa faceta interessante mostrando todo o seu talento como ator, o que me surpreendeu muito. Ele não precisa se provar, mesmo que seja sempre lembrado como o Doutor, o ator consegue nos imergir nesse enredo complexo e levar-nos, apresentando cada um dos suspeitos. Carteiros, jornalistas, encanadores, padres e etc, um mistério policial típico, mas que brilha por ser crível, emocionante e humano. Broadchurch não busca ser atraente, sim reflexivo frente a tamanha humanidade ao qual somos apresentados - ninguém é perfeito. Paul Coates, o padre, diria: estamos todos sujeitos ao pecado original.

Olivia Colman, assim como Tennant, merece destaque, pois a junção com o ator é harmônica, e os momentos em particular de sua personagem fazem com que a atriz, que carrega uma carga cômica, transforme o sarcasmo em tragédia. A evolução de Ellie é impactante, pois é coerente e surpreende por nos prender em toda a trajetória, até o sombrio fim.

A harmonia ilusória da cidade sucumbe gradativamente, com as feridas de cada cidadão e pistas do assassino. A surpresa final é sincera,  pois o apego especial que acabamos por ter nesse turbilhão de suspeitos, ganha uma explosão de angustia e dor. Assim como a vida, o fim não é bom; não é ruim: apenas existe e todos tem de se contentar; aliás, o fim é só o começo, de algo que continua, até a morte das vidas contentes na tristeza da profundidade em si, mas estando assim, sorridentes, pela imagem perfeita que transparecem.

Danny Latimer é a vítima de um assassinato comum no mundo, mas que ganha grandes proporções não pelo caso, mas pela a cidade que o rodeia. O castelo de cartas, papel por papel, desmancha-se e ao fim, necessita ser reconstruído. A resolução de uma situação nem sempre acaba com os problemas: aliás, pode intensificá-los. Com uma ótima direção (os closes e cenas estratégicas são inteligentíssimas) de fotografia estupenda e atuações criveis para um roteiro igualmente realístico, Broadchurch é uma das melhores séries atuais de drama e policial. Mesmo que sua segunda temporada decaia na qualidade, a primeira já está finalizada com uma ótima execução, com começo, meio e fim.
Um drama é bom não por choros e tragédias, sim por reflexões.
Um mistério policial é bom não por mortes e ação, sim pela inteligência ao apresentar seu quebra-cabeça.
Felizmente, Broadchurch consegue nos presentar com esses dois requisitos e muito mais.

Episódios: 8
Canal: ITV
Ano: 2013
Leitura recomendada: "Opinião: Primeiro capítulo de Gracepoint remake do aclamado Broadchurch com David Tennant"
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ (90/100)

El Psy Congroo.

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