domingo, 11 de janeiro de 2015

A religião da cadeira

Eu era um religioso fervoroso como qualquer outra pessoa. Vivia minha doce vida com a convicção de estar fazendo o certo. Até que um dia, assim de repente, comecei a me perguntar: o que é Deus?
Imediatamente me veio diversas explicações, muitas pautáveis em grandes livros, mas sendo sincero nenhuma me convenceu. Apesar de ter tido o que muitos chamam de contato espiritual, parecia que aquilo tudo fora tão estranho, rápido e repentino, que identifiquei como uma transbordação de todos os sentimentos que me afligiam na situação que passava. Tanto que assim que melhorei de vida, me vi novamente vazio diante da existência eterna e criadora.
O universo tem um Deus? Provavelmente. Nada surge do nada. Ele é consciente? Não sei, mas se for, é um tremendo filha da puta, então prefiro não acreditar nisso. Ele é um criador? Também não sei, mas se isso for verdade, nós humanos seriamos ou poderíamos ser considerados algo como um tipo de Deus também?
Enfim, minha mente se encheu de perguntas e questões, que eu não sabia responder e, meus livros me davam respostas muito vagas, incertas ou incoerentes. Foi então que finalmente admiti: "eu não sei". Foi difícil concluir que todas as minhas considerações sobre o mundo e a vida não passavam de um "não sei"; era como se eu fosse burro, incapaz de entender as coisas mais simples. Tentei por diversas vezes voltar à minha antiga religião, mas era tudo tão vazio que eu não via mais aquele ardor espiritual de antes - era como se houvesse uma cortina e eu tivesse aberto ela e, o que havia do outro lado não era tão bonito assim.
Fui pesquisando cada vez mais e descobri a filosofia. Achei que me ajudaria (e me ajudou, agora sou um homem não tão ignorante), mas só me trouxe mais questões: e o pior, questões inevitáveis que eu inconscientemente me contentava com as respostas de outros. Ninguém sabia o que era certo ou errado, Deus ou não. Foi então, que visto tudo isso, descobri uma nova religião, que fazia até certo sentido para mim e acabou renovando meu espírito. Se era para adorar algo, como dizia Kant, então que fosse algo que eu pudesse ver e tocar - confirmar a existência pelo menos por meus sentidos. Saber seus usos, beneficios e finalidade no mundo. Assim, criei a religião da cadeira.
Você pode até achar esse nome estranho, mas é exatamente isso que eu estou falando: cadeira. Muitos vão debochar de mim, mas vou lhes dizer dez motivos pelo qual se deve adorar a cadeira e garanto que até o fim desse post, você será um profeta do banquinho.

10 motivos para adorar a cadeira:

Número 1: ela existe. Podemos comprovar vendo e sentindo. Ela existe e está ali, com sua comum forma e variações.

Número 2: podemos saber exatamente seus beneficios. Você pode atribuir a Deus sua riqueza, mas nunca poderá comprovar que foi ele quem lhe ajudou. Com a cadeira, posso saber o quão bem faz para as minhas costas, meu conforto, meu descanso, meu apoio e etc. É ela quem está ali quando preciso trocar uma lampada, podendo ser usada até mesmo como arma.

Número 3: a cadeira fala com você. Do mesmo jeito que muitos podem afirmar que sentem Deus, eu afirmo que sinto a cadeira (literalmente) e seguindo a mesma lógica, ela fala comigo. Pois, toda vez que estou sentado nela, penso bastante e consigo resolver muitas coisas. Imagina uma mesa sem cadeira? Agora uma cadeira sem mesa é bem normal. Quando estou sentado nela sinto uma incrível sensação de descanso, mesmo que tenha andado o dia inteiro, e assim os pensamentos se ajeitam e consigo raciocinar direito - seja para saber como pagar aquelas contas ou o que dar de natal para minha família. A cadeira é incrível!

Número 4: sua importância. Podemos ver diversas variações da cadeira, como puffs e bancos. Todos fazem parte da mesma criação  e por isso levam a mesma importância. Imagina sua vida sem um encosto para sentar? Que desgraça seria, andar de ônibus em pé, estudar em pé, almoçar em pé, ser deficiente em pé. Que coisa horrível!

Número 5: Jesus vivia se sentando em cadeiras. Me diz, no quadro da Santa Ceia, onde estão todos? Sentados, é claro. Até mesmo no cristianismo, Jesus reina em seu trono nos céus. Imagina Deus sem seu trono? Que coisa mais estranha, provavelmente não seria Deus.

Número 6: Dinossauros não tinham cadeiras e foram extintos.

Número 7: a cadeira não é somente uma criação humana. Se os dinossauros fossem racionais ou se nos encontrássemos com alienígenas, garanto que todos eles teriam uma cadeira. Incrível não, algo assim permear a todos? Os homens das cavernas tinham cadeira (ou encosto, como dito lá em cima), no antigo Egito tinha cadeira, na Idade Média tinha cadeira. Como vocês podem contestar isso? É quase mágico. Em todas as culturas e lugares tem uma ideia de cadeira. A que conhecemos é só a forma moderna que se apresenta.

Número 8: a cadeira não mata. Onde você já viu uma cadeira matando? Talvez ocorra de nós seres humanos a usarmos errôneamente, mas a cadeira mesmo nunca matou ninguém.

Número 9: visto o fato anterior, em que qualquer pessoa pode comprovar que a cadeira não mata, posso afirmar que ela é benevolente, pois além de nos dar conforto, suporta nossa aflições, seja por meio de pisadas, gordura ou modo de sentar errado.

Número 10: muitos cientistas e artistas não admitem, mas são adoradores da cadeira. Veja Albert Einstein, passava horas sentado numa. Stephen Hawking então, é praticamente pastor. Sem a cadeira, como o homem teria vivido nos tempos das cavernas ou feito as maiores descobertas da ciência?

Pois então, a cadeira é algo divino e incrível, que existe sem os seres humanos e existirá mesmo depois que partimos. Agradeço a ela todos os dias por me confortar. Que a cadeira lhe conforte também e a paz de estar sentado numa esteja contigo. Ela nunca me julgará por meus atos ou dirá o que devo ou não fazer: ela simplesmente está ali e quer meu bem.
Mesmo nos piores dias em que mal podemos ver sua existência, sabemos que logo ela estará conosco ou perto. A cadeira nunca nos abandonará.

El Psy Congroo.
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