quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O que é que a Playboy tem?



Possivelmente todo homem deve ter visto uma playboy. Nem que seja de esguelha, com um olhar tímido, a capa estampando alguma beldade na banca de jornais. Porém, mesmo sendo voltada para o público masculino, isso não quer dizer que a Playboy seja lida apenas por marmanjos punheteiros, já que contém entrevistas, artigos e outras tantas coisas. É uma revista voltada para o tema “sexo” (do ponto de vista masculino) e não estritamente mulher pelada.
Pois bem, me aconteceu um causo que vou contar-lhes.


Fiz técnico em administração há algum tempo e, na aula de Marketing, o professor passou um trabalho. Na época, rapidamente formei meu grupo, com basicamente as mesmas pessoas que junto comigo fariam o TCC e as quais eu de certo modo confiava. O tema que acabamos por escolher foi Pesquisa de Mercado, um assunto simples que poderia dar bons frutos, mesmo com o conteúdo escasso.
Com a pressão de sermos o primeiro grupo a apresentar, prontamente nos reunimos para discutirmos as ideias e escolhermos alguma empresa para trabalharmos em cima. Mas queríamos mais. Não apenas uma empresa qualquer, mas uma que pudesse levar o conteúdo do trabalho adiante e ao mesmo tempo tivesse uma dinâmica divertida, já que a apresentação deveria ser criativa.
Depois de várias ideias e nomes ditos, acabou que todo paramos com um: Playboy. De imediato, os quatro rapazes do grupo se encararam com olhares felizes e disseram: “é essa a empresa!”. Só não contávamos com o quinto elemento do grupo – uma mulher.
Mas o problema não era por ser uma mulher (longe disso) e, sim por ser uma mulher sexista e machista que segue dogmas antigos impostos pelos homens. Uma feminista anti-feminista.
A moça tratou rapidamente de ir contra a ideia de usarmos a playboy como exemplo, com argumentos do tipo: “sou casada, e a minha imagem como fica?” “a classe é composta por mais mulheres do que homens, vocês estarão indo com desrespeito às mulheres” “isso é imoral” e etc. Eu, direto como sou, simplesmente disse: “então quer dizer que você está dizendo que mulheres não podem ler a playboy? Que elas não podem ter o direito livre de expressar sua sexualidade ao mundo?”
Em relação ao argumento “vocês estarão indo com desrespeito às mulheres”, tratamos portanto de perguntar às mulheres da classe o que achavam. Resultado: a maioria achava o tema divertido e uma sacada genial fazer um trabalho de pesquisa de mercado sobre.
Mesmo com todos os nossos argumentos, a moça machista continuou indo contra a ideia, dizendo que não era certo e que jamais faria um trabalho do tipo. E adivinha? Acabou apelando para a religião.
O desfecho, se fizemos ou não o trabalho com a Playboy como base, fica em aberto. Mas daí, brotou em mim tantas outras questões e reflexões que pretendo partilhar com vocês.

 “Mulheres não podem ler revistas adultas, é imoral. Homens sim.” – foi uma das coisas que entendi de todo o discurso pomposo de minha colega. Isso é algo que eu entendi na hora, de prontidão, mas para ela parecia ser algo sem sentido. É estranho. É como uma ideia plantada e cravada bem no fundo da cabeça, onde a pessoa repete, os outros identificam o problema, mas a própria não consegue ver o que se passa. A manipulação que acontece é deprimente, pois é o que denigre a própria imagem.
Por atitudes como essas é que mulheres continuam sendo vistas como objetos sexuais de menor importância. Não por estamparem capas de revistas que são material de punheta para marmanjos, mas sim por se fecharem, levando adiante a ideia de que são propriedade do marido e devem agradá-lo. Não importam seus direitos ou pensamentos, a mulher deve ser certa e moral, enquanto o homem se prontifica de obter todos os prazeres.
É perigoso dizer, mas falo com convicção que o machismo tem mais efeito nas mulheres do que nos próprios homens. Tantas vivem uma educação advinda de uma ditadura familiar, onde o pai era o chefe e a mãe a cozinheira e amamentadora. Porém, na maioria das vezes, é perceptível ver um “feminismo” exacerbado, que na verdade não passa de um machismo ignorante, escondido nos panos da sociedade.
Kama Sutra quebrou tabus há centenas de anos e mesmo assim, o assunto ainda é polêmico numa roda de conversa composta de mulheres e homens. Talvez seja por isso que quando faço piadas com teor sexual, muitas vezes as ditas “piadas sujas”, o pessoal ri e se choca mais.
Não é por eu estar tocando numa ferida da parte feminina que eu ignoro o enorme buraco de bala da parte masculina. Muito pelo contrário. Apenas decidi desabafar diante desse acontecimento, que impulsionou diversos pensamentos sobre a posição da mulher em termos sexuais, diante de uma sociedade machista, sendo ela própria vítima disto. Mas não podemos dizer mais isso – “vítima”, pois a informação está aí; para tudo e à todos. Conhecimento é algo que hoje em dia, diferente de antigamente, não tem escolha de etnia, religião, estilo e etc. Talvez ainda classe social, mas até isso está sendo quebrado aos poucos.
Entendo um posicionamento sexista e machista em jovens de 15 anos, mas não em mulheres de 20 e 30 anos. É o mesmo que sofrer na pele e ignorar.
Para finalizar, termino citando Lenny Bruce em um dos seus shows geniais de stand-up, representado no filme Lenny de 1974:

“Eu queria defender esta ideia, que a supressão de palavras é que dá o poder à violência, à perversidade. Se o presidente Kennedy fosse à televisão e dissesse: ‘gostaria de apresentar a vocês todos os niggas da minha equipe’; e se ele chamasse ‘nigga’ todos os pretos que via. “nigga, nigga, nigga...”, até que isso não quisesse dizer mais nada, não faríamos um rapaz preto chorar por que alguém o chamou de ‘nigga’ na escola.”

Senhores e senhoras como essa moça que não quis fazer um trabalho sobre a Playboy por puro sexismo, podem ser os mesmos responsáveis por tanta desinformação na área sexual, ocasionando doenças e o que é muito visto: gravidez precoce.
Me senti um viajante do tempo - de volta à Idade Média.

El Psy Congroo.
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