segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens (1922)

Nosferatu ou Drácula; não sei. Fica como preferir.
Ou você mal sabe do que estou falando? - apenas do maior plágio da história do cinema em termos de história. Mas um dos poucos que se valem e que revolucionou a indústria cinematográfica como um todo, levando o que conhecemos hoje como terror à outros níveis para a época.
Mesmo sabendo disto, nunca havia assistido o filme. Já ouvira falar, mas nunca houvera aquele interesse de minha parte para ir além das recomendações e buscar a dita obra.
Até que um dia, mudando de canal, eis que o longa estava para ser exibido. O maldito tédio me infortunava e eu decidi por verificar o filmezinho do vampiro mais querido dos livros (>>> Cullen e Lestat), mesmo que não gostasse de filmes mudos, separando apenas alguns do mestre Georges Méliès.


Quem tem medo do vampiro mau?

O romance de Bram Stroker, Drácula, foi lançado em 1897 e desde lá tem assolado a imaginação das pessoas. A idéia de um ser imortal que pode influenciar seres, sugando a alma destes, tem aterrorizado e causado a inveja de muitos.
Apesar de Stroker não ter sido o criador do ser lendário e místico "vampiro", foi por ele que a criatura ganhou melhores formas. Antigamente perduravam lendas sobre monstros da noite que drenavam o sangue dos humanos, muitas vezes confundidos com os lobisomens.
A idéia percorria a mente das pessoas, mas só quando Drácula foi lançado que esta passou a percorrer os sonhos, ou melhor, pesadelos.
Simplesmente por ser crível, este livro traz toda uma atmosfera, de um gênero que ficaria mais intenso com H.P. Lovecraft, tendo influências além do próprio Drácula, em Edgar Allan Poe.
Pois bem. O mundo já conhecia o terror além das histórias contadas em volta da fogueira e o cinema já ganhava formas mais concretas em 1896.
Conforme a indústria se expandia, filmes e mais filmes de determinados gêneros surgiam, dando uma nova vida ao entretenimento que antes era ligado principalmente aos livros.
Havia todo um movimento cultural na Alemanha (o Expressionismo), com alguns filmes de suspense. Isso claro, antes do cinema alemão ser deteriorado e dizimado por um simpático senhor, de grandes idéias para com a sociedade: Adolf Hitler. 
Talvez, se não fosse por ele, o cinema alemão poderia ser o maior e melhor do mundo, algo como o Estados Unidos munido de Hollywood. Bom, tudo o que podemos fazer neste caso é ficar imaginando situações hipotéticas que continuarão sendo hipóteses.

O fragmento inicial para a realização de Nosferatu veio de Albin Grau, da Prana-Film, produtora que tinha o objetivo de realizar filmes esotéricos. A inspiração parece ter surgido de uma experiência de guerra dele, em que um agricultor disse que seu pai fora um vampiro.

Henrik Galeen foi contratado como roteirista e mal sabendo das irregularidades que o filme passava, teve uma idéia quase genial, que combinava com o Expressionismo e estilos, digamos ocultista, da produtora.
Aaahhh... Mas sempre existe um porém. Uma pedrinha que insiste em ficar no sapato , importunando quem quer que use o calçado. Nesse caso, a pedra era a família de Stroker, que DE JEITO NENHUM queria vender os direitos para a produtora transformar o livro em filme.
Mas tem gente que se acostuma e acaba conseguindo conviver com a pedra ali; bem na ponta do calçado. - A companhia decidiu então, numa sacada malandra, alterar o nome das personagens e lugares, deixando a história principal intacta. Se fosse hoje em dia, ninguém se atreveria a se quer plagiar uma cena. No dia seguinte, papeladas estariam já na caixa de correio, com um processo correndo na justiça. MAAAASS, voltando 91 anos atrás: plagiar em uma mídia consideravelmente nova, seria algo normal e até louvável de se fazer. Isso é, se a família de Stroker fosse burra.
Apesar da época, a galerinha fã do esoterismo recebeu um baita processo nas costas e as cópias do filme foram destruídas ou guardadas a sete chaves. É até irônico um clássico ser privado de ser apreciado. Por sorte, existem duas coisas: morte e domínio público.
Morte por que a viúva teimosa de Bram morreu algum tempo depois, deixando os direitos autorais mais, digamos, "maleáveis", com Nosferatu ganhando cópias restauradas e até um remake. 
E domínio público porque o clássico pode ser livre e apreciado sem amarras e censura, por todas as pessoas de todas as idades.

Gravação

Como já dito, o longa tem influencia do próprio cinema alemão, fazendo parte do Expressionismo.
O direto F.W. Murnau acabou escalado para dirigir. Na época, apesar de ser "novato" na profissão que exercia, seus filmes ganharam grande reconhecimento (em comparação, seria como se fosse Quentin Tarantino. Bastante conhecido mesmo tendo poucos filmes).
Grau ficou responsável pela parte artística (decoração, figurinos, maquiagem e etc), por ter estudado na escola superior de Belas Artes de Dresden. Hans Erdmann fez a trilha sonora e os atores contratados eram em sua maioria do circuito expressionista.
Ao ar livre, o filme começou a ser rodado em 1921.

Uma Sinfonia do Horror

A história se inicia mostrando a doce vida de Thomas Hutter, tendo logo seu pontapé inicial quando este é mandado por Knock, o corretor de imóveis e seu chefe muito estranho , para achar uma casa para um conde chamado Orlok, na cidade de Wisborg.
No inicio, para quem não está acostumado com o cinema mudo, pode estranhar e achar até engraçado as caras e bocas dos atores. Mas tudo vai tomando forma e consistência, fazendo nossas mentes se aconchegarem com os cenários e "cores".
Parece ser uma estranha história fanfarrona ao melhor estilo Charlie Chaplin, até que aos poucos algo cresce.
Um som chama a atenção. Depois um fato peculiar. E outro... 
Assim, o oculto ganha forma e com a entrada do grande Conde Orlok, ganha corpo. O corpo de um enigmático demônio, que parece calmo e desesperado ao mesmo tempo.
Se lembra de Heath Ledger como Coringa, no filme Batman O Cavaleiro das Trevas? Se lembra de sua assustadora presença, quase como se fosse realmente o vilão em cena? - Bom, multiplique isso três vezes e terá Max Schreck como o Conde Orlok.
É aterrorizante apenas o olhar do demônio, que penetra na alma do telespectador, trazendo os instintos e medos primários da humanidade - o escuro e desconhecido.
Não há cortes ou cenas em que a câmera vira e de repente o monstro está lá, lhe dando um susto. Há apenas um enquadramento, uma parte clara e outra escura do cenário. Irreconhecíveis olhos aparecem na escuridão e aos poucos, conforme o demônio avança, as feições transparecem e logo a criatura está ali, - andando lentamente em direção à protagonista presa no quarto de hóspedes.

As cenas no "escuro" são primordiais e o enredo tem um desenvolvimento fascinante, sendo fiel ao livro e fazendo mais: elevando o terror a outros patamares, dando uma atmosfera mais profunda em determinadas cenas.
F.W. Murnau é genial, com enquadramentos modernos para 1922 e, uma edição meticulosa, com cenas escolhidas à dedo - quase um Kubrickiano. Ou melhor, Kubick é um Murnauiano.
A trilha sonora fúnebre, basicamente um albúm de réquiens, assim como a direção e atuações, é primordial para o clima da história. Cada som se encaixa perfeitamente com o que é proposto.
Outra coisa que vale atenção são as sombras, usadas com criatividade diante da escuridão do castelo, dando aquela sensação de quando acaba a energia na tua casa e acende-se uma vela(eu ainda faço isso. Desculpa não usar o celular :/ ). Você vai andando, apenas com a vela em mãos como iluminação, até que adentra o quarto e toma um susto! - Em meio aos fantasmas invisíveis, visíveis na sua mente, você vê um demôniozinho, que decidiu vir à Terra levar teu corpo ao inferno, para agonizá-lo durante a eternidade. Mas aí, você percebe que é só o armário.
A diferença é que aqui o demônio é "real" e pode matar.

Conclusão

Com um solavanco o homem acordou desesperado, suando e gritando. Sua respiração ofegava e, os olhos arregalados olhavam para os dois lados em uma súbita preocupação paranóica. A lua estava cheia, iluminando parcialmente o quarto, deixando a cômoda encostada na parede clara e em cima dela, as numerosas fotografias da vida do quase louco.
A barbicha fazia uma pontinha assim como o bigode, apesar de estarem ainda sujos de leite e outras coisas mais. Não tomava banho há uma semana.
Desesperado, levantou-se, colocou o roupão azul jogado na poltrona e desceu as escadas para a cozinha. Ao chegar, sentou-se e descansou a cabeça na mesa, olhando para a janela que também mostrava a Lua em seu mais lindo esplendor.
Os sonoros gritos invadiram o ar aconchegante da noite - "ele está acordado, assim como eu".
O que pareciam urros involuntários se tornaram gritos ressoantes, quase um pedido de socorro.
O homem sorriu. A sensação energética do terror lhe invadiu a alma. O masoquismo prazeroso junto da Lua branca, lhe davam um prazer excitante.
Levantou a cabeça e foi até o microondas, onde seu óculos de aros grossos e redondos descansava de seu dono. Tirando-o do descanso, colocou-o em seu rosto, ainda sorrindo, enquanto os gritos ficavam cada vez mais agressivos.
Abriu o armário e desnorteado procurou por algo. Apressou-se.
O olhar paranóico voltou para seu rosto, e com raiva foi desarrumando as panelas e tudo que encontrava pela frente. O sorriso desfizera-se numa careta brava. Até que voltou.
O homem encontrara um alicate corta vergalhão, ainda sujo de sangue.
Não mais distinguia o prazer instintivo da consciência cognitiva. Ele apenas queria ver aquela coisa... Por dentro... Como funcionava...
Foi então que os gritos cessaram e o silêncio predominou na casa. "Estranho... Deve ter se cansado", pensou.
Pegou uma seringa no bolso do roupão. Encarou-a por alguns minutos, até que jogou-a na lixeira.
- Sem anestesia por hoje.
Logo que disse isso, um baque forte, como uma pequena bomba, fez a casa estremecer e um assobio soar.
- NÃO! - ele gritou já imaginando o pior.
Desesperado, correu até a biblioteca, contou 3 vezes para cima e 22 para o lado direito, tombou o livro e assim abriu-se uma porta secreta, em meio às estantes. Correu para lá, onde outra porta, esta de aço, se encontrava.
Digitou a senha e o quarto secreto se revelou. Desceu algumas escadas, até chegar no calabouço, erroneamente chamado por ele de laboratório.
Estantes e mais estantes com espécimes e substâncias em vidro alongavam-se até o final da sala. Em um canto, a parede quebrara e correntes e mordaças estavam caídas solitariamente. Caminhou rapidamente, furioso consigo mesmo, sem entender como tamanha má sorte lhe afetara. Então, avistou um rato morto. Abaixou-se e pegou o coitado com as mãos. Dois orifícios começavam e passavam pelo animal ensanguentado de canto a canto.
Percebeu algo mais. No chão, o sangue se espalhara formando desenhos, - na verdade letras. Afastou-se um pouco e pode ler uma nítida mensagem: "OBRIGADO PELA TORTURA". Lido isto, voltou-se para a janela que escancaradamente deixara aberta, para seu hóspede apreciar a Lua.
Colocou a cabeça para fora, buscando ver a silhueta do morcego voando. Mas nada encontrou.
- Maldito seja! - disse irritado.
Até que viu algo brilhando. Ao longe, envolto da sombria floresta, uma silhueta esguia, alta e corcunda, caminhava de um lado para o outro, com os olhos amarelos vidrados em seu anfitrião.
E esta foi a primeira noite das próximas 1095 que se seguiriam por toda a sua vida, até sua morte, onde o antigo hóspede convidativamente sorria e olhava para o cientista, definitivamente louco.

El Psy Congroo.
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