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Destaques

O terror como punchline humorística em Get Out

O cinema tem como principal função apenas entreter, assim como qualquer outra forma de arte. Você pode dar "n" motivos para uma obra ser boa, mas se ela não entretêm, ela não serve para nada. Tendo isso em mente, eu sinto falta de um cinema um pouco mais descompromissado; eu sinto falta de contos e crônicas sinceras, coisas que só vemos em produções independentes que em sua maioria se quer chegam por essas bandas. Portanto, ver um filme como Corra fazendo sucesso tanto entre o público de nicho e o público geral, acabando por ser exibido com certa relevância, chega a emocionar. Não que isso automaticamente torne o longa bom, mas é que a sua proposta é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de nuances e propósitos, que é difícil não torcer para que dê certo. Corra deu certo e não só isso, é um respiro no gênero tanto de terror quanto de comédia. Ele não é inovador, mas a sua exótica combinação de gêneros culmina em uma história bem executada, sem a necessidade de ser megaloma…

Let me In, a solidão de uma criança.


Fuçando no Netflix me deparo com um título interessante, ao ler a sinopse percebo que é uma história de horror com crianças! Aí sim a coisa fica legal. O filme é a adaptação americana de um livro sueco, Låt den rätte komma in, ou em português, Deixe-me Entrar.

Não sou pedófilo, mas acredito que a pureza e a inocência de uma criança são umas das melhores maneiras pra representar o quão profunda é a natureza humana. Uma criança não sabe de nada, ela age de acordo com o pouco que sabe e o que seus instintos lhe dizem.


Owen é um garoto de 12 anos, magro, baixo e fraco. Ele sofre bulliyng por ser introvertido e molenga, seus pais estão se separando e sua relação com eles é cada vez mais e mais distante. Em suas reflexões solitárias no parque de seu prédio, Owen encontra uma menina descalça. Ela se torna seu único apoio e ele fica cada vez mais interessado na menina estranha. Ela não usa sapatos, diz não sentir frio e só aparece a noite. Apesar de todas as estranhezas ele ainda quer ficar perto dela, afinal, é como se ela fosse sua única relação humana.

Owen é muito sozinho, apesar de sua família estar viva é como se ele não tivesse ninguém, por isso ele da tanta importância a Abby, sua nova amiga. Quando a pessoa não tem nada, quando consegue algo se apega ao máximo, e Abby foi bastante gentil com ele e deu espaço para isso, além de que ela é interpretada pela atriz Chloe Moretz que hoje em dia já está gostosa crescida, Owen safadão.



Mas o verdadeiro açúcar da história está no fato de que Abby não é humana, no começo pensei que o filme todo se trataria de o que ela é mas, logo no começo já nos revelam que ela é uma vampira, Owen vê ela se mudar junto de um homem de meia-idade para o apartamento ao lado do seu, e então começa a encontrar ela periodicamente. Ela diz "Não podemos ser amigos" mas ele não liga, ele só quer ter alguém. A relação dos dois vai se desenvolvendo até chegar na questão em que Owen descobre que Abby não é normal.



Vendo totalmente por cima é possível relacionar até com Crepúsculo, entretanto, a profundidade humana presente em Let me In é tamanha que comparar a Crepúsculo é motivo de riso, Abby não é simplesmente uma vampira, uma fadinha para brilhar na floresta - vampirismo é uma sina, um doença. Ela tem a aparência de 12 anos mas sua idade é indeterminada, o estranho disso é ver que apesar de seus anos a mais Abby não é lá tão diferente de uma criança. Será que o trauma, o que ela passou ao ser transformada, a fez não crescer mentalmente? Será que ela é uma velha no corpo de criança, e se aproxima de Thomas com intenções pedófilas? Será que da mesmo pra considerar como pedofilia?


E como se espera dos humanos, eles são imprevisíveis, Owen descobre o que Abby é mas não a repudia, ela é "tudo que ele tem" e pra ela é a mesma coisa. Owen é uma maldita criança e incrivelmente Abby não parece tão diferente também, as emoções desses dois são bem construídas mas, creio que ela poderia ser melhor, os atores não são ruins mas o Owen americano muitas vezes é irritante pela sua falta de expressão, na versão europeia a personagem é melhor representada.


Comparação entre as duas versões.

Os eslavos tem uma capacidade tremenda pra contar histórias tendo planos de fundo fantasiosos. A imagem que temos do sobrenatural, bruxas e vampiros vem quase tudo deles. A menina Abby no original é o menino Eli! Sim! Não entendi quando vi, o que aconteceu é, Eli foi castrado há muito tempo e transformado com 12 anos e tendo umas feições um tanto quanto femininas, ele se passa por mulher facilmente. Na verdade acredito que não sendo nem mais humano, Eli provavelmente descarta a relevância do gênero e se veste como garota pois é mais fácil as pessoas baixarem a guarda. No filme americano Abby diz algumas vezes "Eu não sou uma garota Owen" e você interpreta isso como "Não sou humana", enquanto que na versão Europeia o sentido é literal. Além do que falam sobre Eli ter sido castrado, é certeza que vários detalhes interessantes do livro passaram por fora do filme.

Eli sendo homem muda algo? Nada, é um romance vampírico homossexual com crianças. Apesar de vermos Eli como menina ao descobrir isso nossa visão do mesmo mudaria muito, mas para o protagonista da história isso é irrelevante. Não dizemos que as crianças são puras por motivo nenhum, ela considera uma pessoa importante e nada vai fazer ela pensar o contrário.



Percebe-se pela escolha da atriz Lina Leandersson para a versão Europeia que eles tem uma importância maior com o livro, Lina não é um projeto de boneca que nem Chloe, é impossível imaginar que Chloe é um homem extremamente afeminado ou algo do tipo.

Os dois filmes tem um ritmo bem lento mas se o tema lhe interessa vale a pena. A versão europeia é um pouco melhor, tem mais detalhes do sentimento dos personagens, por exemplo mostra cenas na qual a menina vampira chora por ter que matar pra comer, entretanto os dois filmes tem praticamente a mesma essência, mesmo eu recomendando a versão europeia vale a pena assistir a americana também.

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