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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

O pop reflexivo de Stromae


O pop atual sofre de uma extrema doença vulgar emburrecedora, reflexo da crescente população e suas necessidades, muitas vezes reprimidas, liberadas pela música. Não é de se admirar a sexualidade viciante, que tenta de forma persuasiva vender-se, seja para as mulheres de baixa alta estima que se vêem realizadas como divas no carnaval de bundas, ou para os homens, que mesmo numa era onde o pornô é acessível para qualquer pessoa em qualquer idade, ficam hipnotizados pelo o que não podem ter em suas fantasias sexuais, também, no carnaval de bundas.

O que eu acho incrível em tudo isso é Stromae. Artista belga confundido com francês, magrelo e esquisito, que vai de contra qualquer vertente ou moda. Enquanto o mundo vive uma paralisia sexual e revoluções de cadeira, Stromae parece preso em seu próprio mundo, ou melhor, o inverso, atento ao que realmente acontece no nosso.

Racine Carrée, álbum lançado no ano de 2013, é um avanço na música pop como um todo. Aqui, Stromae se mostra não só cantor, mas um artista completo: vemos sua personalidade em tudo, desde a capa do disco até os clipes elaborados, que complementam muito bem seu discurso.

Ele sempre mostrou o modo com que trabalha, visando temas simples em cada música. Quem não se lembra da viciante Alors on Dance?


As músicas agradam o ouvinte mais desatento por sua melodia, ritmo e refrão dançantes, mas em profundidade, abordam temas complexos que podem passar despercebidos. Na música acima, por exemplo, Stromae fala da caoticidade da vida urbana por meio do povo, que passa por todos os momentos, sempre ali trabalhando e claro, dançando.
Depois disso, temos a interpretação. É possível ver nas expressões do artista o rosto de um personagem, alguém triste e cansado, mas conformado com a vida que leva.
Por fim, tudo é comprimido num só, formando não só a música, mas toda uma identidade. Definir Stromae é difícil, por não se tratar de um mero som, mas uma combinação de coisas que variam desde moda até falas representativas. Algo como a perfeita harmonia entre teatro, poesia e música.

O mais incrível é que este método do cantor, visto já em seu álbum anterior, Cheese, alcança níveis extraordinários em Racine Carrée. Dentro do próprio mundo, o vemos encarnar um ser duo entre feminino e masculino, um filho a procura do pai, um nativo racista inverso na concepção geral e um homem revoltado que dialoga com o câncer.
Sua música é sincera e trata de temas que afligem a sociedade, mas que muitas vezes não percebemos. Está tudo ali, em nosso dia-a-dia, em nossas atitudes, em nossas relações.

"Mas sim, nos conhecemos bem
Você já queria a minha mãe
Você começou por seus seios
E pulmão de meu pai
Você se lembra?

Câncer, o câncer, me diga quando é?
Câncer, o câncer, quem é o próximo?
Câncer, Câncer, oh me dizer quando é?
Câncer, o câncer, quem é o próximo?

E você ama crianças
Certamente, nada vai pará-lo
E pare de fazer o seu inocente
nas embalagens de cigarros
"Fumar mata", você me surpreende
Mas você pode me ajudar"
(Stromae, Quand c'est)


Ainda que dançante, o álbum tem um clima melancólico. Algumas vezes somos recebidos com celebrações, mas em outras, adentramos um funeral por motivos puros e claros, que seguem ativos ao nosso redor. Stromae cria o próprio universo e nos leva maestralmente para conhecê-lo - é quase um tour por sua cabeça: seus pensamentos, devaneios e revoltas; até mesmo humor.
Ainda que trate de forma neutra os temas, vemos muito do pessoal do cantor em cada música.
Papaoutai fala da alienação parental, clara em seu genial videoclipe, de forma que critica a criação dos filhos, numa sociedade de pais cada vez mais ausentes: bonecos que criam máquinas. Máquinas que constroem bonecos.

"(...) 
Se nós acreditamos nisto ou não
Haverá um dia em que não mais acreditaremos
Mais cedo ou mais tarde seremos todos pais
E de um dia para o outro, teremos desaparecido

Seremos detestáveis?
Seremos admiráveis?
Genitores ou gênios?
Digam-nos quem dá à luz os irresponsáveis?

Ah, digam-nos quem
Todo mundo sabe come fazer bebês
Mas ninguém sabe como fazer pais
Senhor, "eu sei tudo", deve tê-lo herdado, é isso
(...)"

O tema foi vivido por Stromae. Filho de pai Ruandês, nunca conheceu direito o genitor, sendo que este morreu no genocídio de Ruanda em 1994.


Tous les mêmes e Formidable falam sobre relações amorosas. A primeira, aborda o estereótipo entre homens e mulheres - o amor conservador, que praticamente inexiste. A faceta dual de Stromae mostra que não existe algo certo para o masculino ou feminino, todos os seres humanos tem esses dois lados inerentes no próprio ser. Ninguém é uma coisa só. Separar pessoas por gêneros, colocando de um lado mulheres e do outro homens, visto assim de fora, soa cômico, caricato e desnecessário.
 

Já Formidable, utiliza da fantasia de um bêbado para demonstrar a realidade do amor mundano, que sucede-se para grande parte das pessoas. Simples e seca, a música transforma o real em narrativa poética.


Deste modo, o som se torna atemporal por tratar de questões puramente humanas, independentes de época ou lugar. Mesmo Carmen, música que fala sobre alienação virtual, estará atual ainda no futuro, por usar de modo inteligente e irônico acontecimentos recorrentes de nossa época para exemplificar a carência.

"O amor é como o pássaro do Twitter
A gente é novato, apenas por 48 horas
Primeiro você se registra, e depois você segue
Você se vicia nele, e acaba sozinho
Cuidado
E de todos aqueles que você gosta
Seus sorrisos em plástico são muitas vezes cheios de hashtag
Cuidado
Oh amigos, colegas ou seguidores
Não se engane, você os tem ao seu lado"

Visto isso, Stromae tem plena consciência do poder daquilo que cria e, não é por menos que incorpora os elementos visuais em tudo o que faz. É outro nível artístico, já que a elaboração para determinado assunto se estende e se torna criativa. Ele dança, canta e até brinca de forma diferente para cada música. Cada qual tem seu lugar e representação, tornando todo o trabalho do cantor uma coisa única.

Um artista singular e atemporal, que desenvolve a própria música de forma inusitada e diferente.
Agradando a massa e os intelectuais, o pop se torna uma arma poderosa de ideias e visões. Um simples cantarolar sem sentido, dá lugar à rimas maestralmente encaixadas numa melodia viciante de ritmo constante. Anteriormente, o cantor já havia realizado um ótimo trabalho, mas agora, com Racine Carrée, vemos tudo isso ampliado de forma altamente elaborada. Por fim, Stromae não é um mero cantor e nem sei se é possível definir o que faz como House, Rap ou Hip-Hop; apenas vejo grandes sinfonias, que ainda simples, me surpreendem por seu poder de reflexão inerentes até mesmo ao não entendimento da letra. Sinfonias não de uma diva; mas de um grande maestro.

El Psy Congroo.

Comentários

  1. Cara, ótimo post, o Stromae é realmente foda, o jeito com que ele consegue colocar assuntos que te fazem pensar numa música empolgante e nem um pouco chata é genial e não dá pra ser definido como integrante deste ou daquele grupo, é uma incógnita com músicas que não desgrudam da cabeça


    mini-verso.blogspot.com.br

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    1. Acho que o mais incrível dele, é uma coisa que li no Estadao se me lembro bem: Stromae faz as pessoas dançarem músicas tristes. Quase todas as músicas dele são reflexivas e tristes, porém, como uma aura alegre.

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