domingo, 7 de setembro de 2014

O humor sujo e dramatizado de BoJack Horseman

Esta obra tem os selos "Engraçaralho" e "Drama Foda" de Qualidade.

A derrota pode ser uma grande amiga e força motivadora. É ela quem lhe coloca os pés no chão e te impulsiona a continuar em busca do que desejas. O fracasso nada mais é que uma fase, pela qual precisamos saber passar para ao fim, superá-lo e ficarmos mais fortes do que nunca.
Bom, agora vamos para a realidade.


BoJack Horseman é uma animação adulta original do Netflix(a primeira do principal serviço de streaming do mundo) lançada no ano de 2014. Criada por Raphael Bob-Waksberg, a história se passa num mundo onde animais antropomórficos convivem normalmente com os seres humanos. Dentre os animais, temos o nosso protagonista: BoJack Horseman (Will Arnett). Um cavalo (sim, cavalo) ator fracassado que vive de uma série antiga que fez sucesso em meados dos anos 90, sendo infinitamente reprisada. Na história, acompanhamos a trajetória de BoJack em busca do sucesso.

Vou confessar: ao inicio não me agradou nem um pouco. O desenho me parecia comum, como tantos outros que vemos por aí, acabando por desmerecê-lo. Porém, resolvi assistir o primeiro episódio.
O piloto da série não é ruim, mas também não é lá uma maravilha. É bem simples, com piadas sem muito timing e uma comédia original, mesmo que um pouco saturada. Já vimos isso mil vezes, seja em Family Guy, American Dad, Simpsons ou então mais recentemente em Archer (apesar deste ser diferente dos anteriores). Um desenho exagerado, onde num episódio acontecem loucuras e no seguinte tudo recomeça.
Mas é aí que todos se enganam e são pegos de surpresa: BoJack não é uma animação adulta comum por, primeiramente, ter continuidade. Esta é uma sacada genial que me deixou boquiaberto, pois ao inicio ele é bem desconexo, com um humor levemente interessante. Logo, tudo vai sendo interligado e você acaba por entender a proposta da série. O desenho não é feito para ser engraçado, isto é uma consequência - ele se prende em apenas contar uma boa história. Então, o que era para ser uma história nonsense para arrancar altas risadas, se torna uma animação sarcástica, dramática e realista, que leva o aprofundamento das personagens à outro nível. A ironia se dá pelos animais que protagonizam o seriado, serem mais humanos que dramas famosos.

BoJack pode não ser engraçado ao ponto de seus dentes saírem pra fora numa espalhafatosa risada. Ele não tem esse propósito. Segue-se a história sempre com humor, em nenhum momento este é deixado de lado, mas não se torna gênero daquilo. É um dos vários elementos que compõe a obra. Portanto, as piadas fazem sentido. A graça está na sagacidade com que elas são usadas e criadas: mesmo que você não ria, acaba esboçando um sorriso e pensando, "Wow como isso é inteligente".
O roteiro foi claramente muito bem planejado, tendo uma noção de tempo exata e ousando brincar com o telespectador. Percebe-se um controle maestralmente exercido sobre a obra, pois  tudo é muito harmônico: seja a animação ou as piadas escrachadas. Sem contar o realismo - a vida não tem plotstwists, conclusões, finais felizes ou sacadas geniais a todo o momento. Em termos gerais, a vida é decepcionante. E é esse o ponto que a série aborda. A corrupção humana é frequente e não existem vilões ou mocinhos: apenas visões diferentes.

BoJack é um cavalo fracassado e sarcástico, como uma mistura de House e Charlie Harper. Não entendemos sua chatice ou podemos dizer o próprio humor do animal. Ele apenas está ali, como Homer sempre foi um idiota e, achamos que sempre estará. Mas a verdade é que BoJack é muito mais que isso: seu jeito se deve a pais autoritários, rabugentos e infelizes; aos abusos de drogas diante da solidão, da grande podridão do ser frente ao sucesso em Hollywood. Ele é triste, engraçado, narcisista e realista. BoJack não é apenas um cavalo que fala demais: ele é o exagero em pessoa que representa todos nós. Tudo o que não temos coragem de falar ou fazer.
Vemos uma tentativa severa de aceitação, por nunca ter sido entendido por seus pais. Não importam suas opiniões, BoJack quer ser visto como mocinho. Constantemente ele é julgado pelos outros, e muitas vezes duvidamos de suas atitudes. Mas se pararmos para pensar, seu único erro está em ser sincero. Todos o criticam, mas ao fim, todos são iguais.
Com meros 12 episódios, temos um constante aprofundamento das personagens. Uma gata supera a derrota; um mendigo supera a traição; um cachorro ignorante segue a vida em duvida; e uma escritora não sabe que rumo seguir, perdida no piche de Los Angeles. E ao conhecer essas e mais personagens, acabamos por nos apaixonar ou odiá-las por suas características únicas.

Outro ponto interessante a se notar é a criatividade: o mundo atropomórfico é bem construído. Ele não precisa de explicação, apenas existe e pronto. Vemos a junção clara do humano com animal: BoJack adora torrões de açúcar; Mr. Peanutbutter  (Paul F. Tompkins) é bobinho e odeia carteiros; Princesa Carolyn (Amy Sedaris) usa um rato de borracha para sempre se motivar e seguir em frente; há pássaros paparazzis importunando nas janelas; e etc.
Todos estão interligados. A atitude de um, resulta numa avalanche que atinge os outros. Algo pode parecer sem importância num episódio (como por exemplo o fato de BoJack enganar Todd sobre sua ópera-rock), mas logo tem consequências.
As criticas são sutis ou escrachadas mesmo, mas de uma inteligência imensa. É preciso estar atento, pois o seriado é cheio de referências.
Em um episódio, BoJack se mete numa confusão com as forças armadas por uma besteira, e em determinado momento ele começa a criticar toda a sociedade e sua cultura sensacionalista. Mas logo é interrompido por uma gracinha de Mr. Peanutbutter em seu reality show, tirando toda a atenção da fala.
São esses momentos que te fazem refletir e analisar o que se passa. BoJack é um desenho que te faz pensar sobre o que acontece ao redor.

A animação é caricata e como já dito, harmônica. Cai como uma luva para a ótima dublagem. Com um time de atores conhecidos, a interpretação das vozes é muito bem desenvolvida - todos dão um toque especial ao seu personagem, desde a um tom mais grosso e bobão, à um mais felino e rouco.

Os doze episódios passam como vinte e quatro de uma série altamente aproveitada. O exagero realístico faz parte do humor sujo de BoJack Horseman. Não esperava um desenho tão profundo em um mundo tão caricato, surreal e estilo saturado. A verdade é que essa série está em outro nível para os desenhos atuais, um passo a frente na narrativa em geral, seja em qualquer gênero ou mídia. 
O final deixa dúvidas, considerações, tristeza e muito mais que tudo isso: expectativas. A ansiedade aumenta diante de uma história otimamente construída e uma comédia-drama tão envolvente. Personagens sinceros e cativantes, com futuro indeterminado. 
Depois de muito tentar agradar, BoJack enfim encontra motivação em algo que sempre gostou. Parece não mais existirem holofotes. Apenas a busca para o que gosta, sem a necessidade de suprir a derradeira carência, de um ser fruto da própria sociedade que lhe mostrou os meios para ser bem-sucedido, sem se interessar pelo o que ou quem é este cavalo.  

"Lá nos anos 90, 
eu estava em uma série de TV famosa.
Sou BoJack, o Cavalo (BoJack)

BoJack, o cavalo. 
Não haja como se não soubesse. 
Eu estou tentando me agarrar ao meu passado. 
Já faz tanto tempo,
não acho que vou durar
Eu acho que vou tentar
e te fazer entender
Que eu sou mais cavalo que homem
Ou eu sou mais homem que cavalo”


El Psy Congroo.
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