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Steven Universo: reflexões sobre o papel educacional de um desenho

Vivemos em um mundo de conflito, onde olhamos primeiro as diferenças e depois as semelhanças. Por essas e outras eu fico feliz de ter assistido quando criança desenhos que falavam sobre alguém excluído por ser diferente. E por causa disso acredito que Steven Universo, entre outros desenhos atuais, são mais do que recomendáveis para crianças e para qualquer um, pois eles possuem uma mensagem que pode potencialmente melhorar o caráter de alguém.

Metrópolis e o cristianismo ingênuo usado como mensagem


"O mediador entre a mente e as mãos deve ser o coração"

Metrópolis é um filme alemão lançado em 1927 pelo cineasta Fritz Lang. Considerado uma revolução no cinema para a época, o longa foi o principal expoente para a ficção cientifica fora dos livros. A trama da história se passa num futuro longínquo, onde a sociedade acabou por dividir-se em dois grupos: nos Jardins dos Prazeres vive a gloriosa Elite, com toda a tecnologia e inteligência. Já abaixo de tudo e todos, está a Cidade dos Trabalhadores. Um lugar que é responsável pelo sustento prático - ou seja, a mão-de-obra.
O pontapé inicial se dá quando Maria, uma mulher conhecida como santa na cidade de baixo, decide levar crianças para visitarem um dos Jardins Idílicos. Lá, Freder, filho de John Fredersen (o magnata dono da cidade), se apaixona imediatamente ao ver a moça. Freder, completamente apaixonado, decide seguir Maria e descobre um lugar estranho e desconhecido. Um lugar completamente diferente do que estava acostumado: A Cidade dos Trabalhadores.
Inicia-se então uma história cheia de simbolismos, que se trata basicamente da luta do proletariado contra o proletário.

O filme começa mostrando a clara diferença entre Trabalhadores e Mestres. Vemos os coitados da cidade de baixo sem nenhuma diferença; sem uma expressão significativa. Quem adentra para o novo turno percebe-se mais revigorado, enquanto quem volta mal pode andar. Os trabalhadores não são únicos, não tem personalidade ou qualquer coisa que lhes faça singulares. Então, portanto, conclui-se que não têm direitos, não parecendo nem mesmo como seres humanos.
Já na cidade de cima, fica clara a diferença. Os filhos, com sua estranheza, vivem numa completa festa sem data prévia de fim, enquanto os "mestres" tem seus dias atarefados ganhando dinheiro por meio de cálculos, estatísticas e projetos. Um trabalho mental que deverá ser direcionado sem o menor pudor para os operários, que lógico, mal sabem o que estão fazendo, seguindo continuamente.

John Fredersen é o arquiteto; o criador supremo; Deus. É perceptível o paralelo com a história de Jesus Cristo.
Ferdersen é o todo-poderoso que vive distante, enquanto seu próprio povo sofre para sustentar uma cidade que mal conhecem. Freder é o filho ingênuo, que conhece seus "irmãos" e se apaixona por estes, ao ponto de se sacrificar. Maria é a santa que chama a atenção do rapaz e quem irá supri-lo diante de sua missão - que lhe mostrará o caminho para a salvação dos pecadores infelizes.
Ao descer à Terra, Freder vê diante de seus olhos o horror que o próprio pai causa. Vê a ação do Diabo frente ao povo sem nenhuma restrição.
Moloch é um Deus ao qual os amonitas adoravam, sacrificando crianças recém-nascidas. Aqui vemos a comparação clara: os trabalhadores são de uma inteligência ínfima, de certo igual uma criança, não havendo importância sacrificá-los para o bem maior. São como gado, jogados nas labaredas flamejantes do maquinário.

Horrorizado com isto (vejam bem, o judaísmo/cristianismo foi responsável pela proibição do culto à Moloch, considerado por estes um demônio), Freder vai correndo contar para o pai o que acabou de presenciar. John, como qualquer arquiteto, conhece apenas a estrutura de sua obra. Apenas os números e nada mais. Não se importa com a vida, nem com as complicações que isso causa.
Vendo o descaso do pai, Freder decide que algo precisa ser feito. E assim como Jesus, desce à Terra imperfeita e sofredora, para viver como um mero mortal.
O Homem Magro pode ser associado com o Diabo, que está sempre à espreita, investigando e vigiando o filho do Criador, para então achar uma brecha e prejudicá-lo.
Nisso, Freder consegue um discípulo: Josaphat é o conselheiro e informante de John Fredersen, logo demitido por não estar interado dos assuntos.
Em paralelo, a Cidade dos Trabalhadores se movimenta para as ruínas antigas, onde um culto ocorre. É lá que Maria ensina à todos, contando histórias e lhes dando esperanças com a lenda do Mediador: alguém que virá para libertá-los da opressão.
E não à toa, o nome do prédio principal de Metrópolis é Nova Torre de Babel.


ROTWANG

Rotwang é um genioso inventor. É ele o braço esquerdo de Fredersen e responsável por todas as invenções. John o consulta em busca de ajuda para o enigmático rascunho dos trabalhadores. O inventor é o ocultismo, o obscuro, a inteligência e a loucura. Escondido debaixo das cortinas, o velho é uma das forças que move Metrópolis. Não existe nada perfeito, algumas cabeças devem ser pisadas por meios nada convencionais. Se a Cidade dos Trabalhadores é a mão-de-obra, Rotwang é o estranho que se esconde, mas que é a verdadeira mente por trás da brilhante cidade.
Alguns mais radicais o associam à maçonaria. Reconheço que o filme tem elementos do tipo, mas sinceramente não acho relevantes. Fritz Lang tem uma explicação mais inteligente para esses elementos do que simples coisas demoníacas maçônicas, basta saber interpretar.

A relação de Rotwang com Fredersen é exótica: ambos se apaixonaram pela mesma mulher. Faces diferentes da mesma moeda.
Outra vez, Deus e o Diabo.

O louco inventor teve então mais uma ideia genial. Algo que enganará todos os trabalhadores diante de sua iminente revolta e acabará futuramente com a necessidade de seres humanos operando máquinas: uma android, que pode se transformar em qualquer pessoa, sem qualquer diferença.
Na casa de Rotwang podemos ver diversos pentagramas (como na porta), o que confirma sua associação com o oculto, sendo mais que isso: o simbolo representa a ciência, o conhecimento e a matemática, um dos primeiros diagramas da história. Podemos também vê-lo acima de Hel (a android) ao se transformar em Maria.
Antigamente, nas chamadas religiões pagãs, o pentagrama representava o lado feminino, a fertilidade, a beleza e o amor. Àgua, ar, fogo, terra e uma força maior que a todos coordena - se pararmos para analisar, temos cinco personagens importantes: John Fredersen, Freder, Grot (trabalhadores), Rotwang e a Android.
Além, de como já dito, ter enorme significado para a ciência, o símbolo representa nada menos que o próprio ser humano.
Ou seja, Hel ou a nova Maria, é a junção do divino com o mortal. O pentagrama é a explicação perfeita do que é a sua existência. A evolução de nossa espécie que não leva nosso maior defeito: os sentimentos.

HEL

Não por acaso, o nome tem associação com a palavra inferno (Hell em inglês). E mais, com a cultura nórdica.
Hela é basicamente o Hades dos vikings, não sendo nem boa ou má, simplesmente justa. De um lado, seu corpo é de uma linda mulher, do outro totalmente monstruoso e em decomposição.
Hel tem essa clara dualidade e por ser um robô, não tem distinção de certo ou errado. Ela é a imperfeição e perfeição juntas numa só.
Hel é usada como uma ilusão (pode-se dizer, mídia), para enganar os burgueses e operários, cada qual de formas diferentes. Percebam, em qualquer movimento popular sempre tem alguém por trás deste, e sempre , de algum modo, a verdade será distorcida. Mas por quem? Por quem é afetado, no caso a Elite. Os sete pecados se unem num disfarce santo, que busca ludibriar. O que ninguém percebe é que toda essa disputa resultará em algo além dos prazeres ou sofrimento: morte.
O que a Elite e nem o proletariado vêem é que, apesar de aparentemente estar de algum lado, Hel é neutra. Aqui, a justiça acaba visando o melhor: a destruição. Se ambos jamais vão se entender, a solução justa é o fim.

Rotwang também acredita que Hel está do seu lado. Isso nos mostra que até mesmo o próprio cérebro, em busca de afirmar o poder, se torna mais uma marionete. Porém, o inventor, não percebe a loucura em que se embebeda, parecendo para si algo racional. É essa loucura, desde o começo tentando justificar-se com a racionalidade, que não o permite prever as consequencias. Seu plano friamente arquitetado, além do próprio Deus, não conta com a intervenção de alguém dentro do próprio organismo para direcionar as mãos.

Revoluções na história nunca aconteceram pela insatisfação popular. O povo é só um meio. Ou seja, se a burguesia é quem faz a revolução, ela mesma pode manipulá-la.
E qual a melhor maneira de manipular a massa? Fazendo voltar-se contra si. Basta plantar um inimigo. Um bode expiatório.
Maria, a líder espiritual santa, se torna então a bruxa promíscua. Babilônia, A Grande, A Mãe das Abominações na Terra. Se Rotwang é o perspicaz Diabo, Hel é a manifestação dos prazeres e defeitos humanos. É ela, capaz de corromper a sociedade ao ponto de destruir o que lhes é mais importante: o coração.

Josaphat, como um discípulo, poderia facilmente representar Judas ou Pedro ("às 3 horas te chamarei"). O mal acaba por ganhar deste.
Maria vive metade do filme em perseguição e desespero e, Freder atrás dela.
O messias busca incessantemente apaixonado a parcela boa da humanidade, pela qual vale a pena lutar. É essa pequena parte que à todo tempo é martirizada em Metrópolis e por ser boa, automaticamente se transforma em ingênua.
A luta de Rotwang e John Fredersen nada mais é que a velha disputa de Deus contra Lúcifer (Imperialismo X Socialismo. Capitalismo X Comunismo). Totalmente perdidos na dominação dos próprios irmãos, ou filhos, frente à ilusão capaz de enganar a todos (Hel), esquecem-se do próprio povo e, assim como Deus num ato de egocentrismo aposta com o Diabo a vida de seu servo Jó, perdem-se numa luta feroz.

A revolta desenfreada dos trabalhadores é cega, pois não percebem que só irá lhes fazer mal. Apesar dos pesares, os operários vivem na cidade e esta é a casa deles. Destruí-la não irá ajudar.
Os operários são zumbis manipuláveis por qualquer coisa que lhes dê esperança.
John Fredersen acha que Hel lhe obedece, mas na verdade esta é fiel à Rotwang. Rotwang acha que Hel lhe obedece, mas na verdade esta é fiel à ninguém. Apenas ao caos e a ordem - símbolos da mitologia responsáveis pela construção do mundo.

CONCLUSÃO


Metrópolis é um filme que bebe na mitologia e nos crescentes conflitos do século 20. Os ideais do capitalismo desenfreado ou socialismo igualitário, para Fritz uma ilusão, são maestralmente representados neste filme.
Vemos uma crescente preocupação sobre a mecanização e a tecnologia substituindo os sentimentos humanos. A ignorância humana na evolução da desevolução.
Freder, enquanto Messias, busca salvar o futuro (as crianças) e ao fim consegue unir em toda sua ingenuidade a mente e as mãos. O que sucede-se é um final elitista, pois o proletariado continuará lá embaixo. Os trabalhadores continuarão sendo menosprezados, mas dessa vez de forma menos opressora.
John só consegue dar o braço a torcer quando é afetado. Por mais que a bondade triunfe, esta é regada à ingenuidade, o que lhe permite ser ludibriada. Mesmo sem Hel, percebemos que o povo continua sendo enganado, suas mentes já não tem escapatória. A android ao fim, era apenas a personficação da natureza humana enganando a si mesma - os prazeres diante da ignorância, que continuam vivos dentro de cada um, seja John ou os operários.

El Psy Congroo.

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