segunda-feira, 22 de setembro de 2014

ELA e o amor

A sociedade caminha para um lugar novo, que há de suprimir tudo o que as pessoas desejam. Um lugar onde a tecnologia é personagem principal, em um mundo onde os seres humanos, já saturados e enjoados de si mesmos, se perdem na carência excessiva dos sonhos. Sonhos indecisos que alimentam doenças do novo mundo; da vida agitada e conturbada - a solidão.
É como diz aquela velha frase, nem tudo o que queremos é o que precisamos e nem tudo o que precisamos é o que queremos.

E se você se apaixonasse pelo seu computador?

Theodore é um homem não tão jovem, que já passou por diversas coisas na vida. Sozinho, segue um cotidiano regrado e vazio, sem saber a necessidade de estar ali, vivo. Sua profissão nada mais é que escrever, mas não como um escritor comum: Theodore escreve cartas. Cartas com ideias, detalhes, imperfeições e acima de tudo: sentimentos. O futuro onde Theodore vive é um lugar que valoriza as emoções, mas não do modo convencional. Qualquer sentimento que seja, é de extrema importância para as pessoas, dentro de sua individualidade. Não importa como nem por que, o objetivo é sentir. Ou seja, o empacotamento das lágrimas é certo.
Aqui, o único sentimento real é a carência, que persegue as personagens a todo momento. A industrialização chega aos confins do coração humano, criando uma sociedade doente, mesmo com as melhores condições de vida.



Samantha é um sistema operacional inteligente com consciência plena. Tudo que ela tem, num primeiro momento, são informações. Assim que sua relação vai se aprofundando com Theodore, ela não mais é um sistema que serviria para ajudar seu dono: ela é um ser. O que nos permite questionamentos existenciais básicos.
O que é a alma? René Descartes já dizia que alma é razão, então portanto, todo ser que pensa existe ("penso, logo existo"). Mas e se esse ser não tiver ao menos corpo? A existência de Samantha, até como humana ou ser racional, pode ser reconhecida? Ela não tem percepção de onde está, já que o lugar onde vive é metafísico, mas ao mesmo tempo reside em algo. Alguns diriam que é difícil reconhecer algo assim ao porte dos humanos, visto que ela é um OS, e basta um clique no disco rígido para ser deletada. Mas os seres humanos seriam diferentes? Basta um carro ou qualquer coisa que atinja o coração para sucumbirmos. A diferença é que tecnicamente não temos, ou não conhecemos, o nosso criador.

ELA aborda o clichê básico da paixão de um modo inusitado. Amor é mais que sexo, afinidade ou beleza, caminhando na linha tênue da paixão ilusória e amor verdadeiro, que claro, já que é retratado com fidelidade, não toma partidos como um Romeu e Julieta da vida. O que pode ser verdadeiro para mim, pode ser uma coisa qualquer para outro. A relação de Theodore com Samantha seria amor ou apenas carência?
De um lado, o homem busca algum sentimento real no mundo em que vive, já que os que tivera no passado foram destroçados. Ele sabe bem a diferença de certo e errado.
Já Samantha, nunca sentiu. Ela experimenta as novas emoções de um modo único e, visto que Theodore é quem aparece, logo ama. Seria como um recém-divorciado namorando uma adolescente.

O amor de ambos é expressado pela convivência, mas o que não se percebe é a deficiência. Querendo ou não, Theodore é deficiente para Samantha, já que não consegue chegar ao plano em que esta vive. Assim, ela acompanha e vive a vida do namorado, mas este não a conhece. Seria a essência, ou a personalidade básica, o bastante para amar alguém? O sistema operacional acompanha a vida do humano com bastante curiosidade e ambos compartilham experiências, havendo uma forte ligação. Só que em determinado momento, Samantha como qualquer ser consciente evolui, criando na sua evolução personalidade e vida própria - vida esta que Theodore não pode acompanhar.
O que os une é a necessidade de conexão. O escritor acha Samantha linda, mas tudo dentro dos seus conceitos ideais de beleza. Em determinado momento questiona tudo isso, ocasionando um colapso no namoro, mas logo visto que quer ser feliz, deixa de lado as incertezas. Seria a felicidade meramente ignorância? Ou Theodore finalmente encontrou o amor verdadeiro?

Pode-se passar milênios e a humanidade continuará com a necessidade de encontrar-se. Percebe-se isto na moda do filme. O ser humano é tão evoluído e mesmo assim retorna às origens reciclando-se infinitamente para a eterna aceitação. É o que acontece ao casal, que descobrem-se sem perceber que estão apenas jorrando as próprias incertezas e medos um no outro. Samantha precisa conhecer e Theodore amar. Ambos buscam conexão, que enxergam nas igualdades do outro.
A grande verdade? Não há diferença de Samantha para uma mortal. O que muda são suas capacidades. Num relacionamento há altos e baixos, e sempre está se apaixonando, alguns mais outros menos. Agora, imagine ser um computador com uma capacidade mental infinita? Os medos, anseios, desejos, paixões e necessidade de aceitação não tem fim, evoluindo de modo descomunal. O ser humano é extremamente complexo e se não fosse pelas suas limitações, facilmente enlouqueceria. Samantha evolui, além do amado, que infelizmente não pode fazer nada diante do lugar onde a namorada está.

Em Apenas Um Show, Mordecai e Rigby entram numa feroz disputa para ver quem é mais inteligente, tomando um super tônico mental. Ambos chegam num estado tão avançado de inteligência que ao final, ninguém entende o que falam. Do que adianta ter conhecimento se ninguém compreende o que é falado?
Um casal vive sua vida negligenciando a realidade para serem felizes e, dentro da evolução pessoal de cada um, a Torre de Babel desaba e cada qual fala uma língua diferente. O fim é inevitável já que não se entendem.
Percebe?

A vida de Samantha decorre independente à Theodore, que ao contrário, vive a base desta. Ambos se amam; ambos se querem; mas não podem ultrapassar a grande barreira que a própria conexão lhes causou.
O fato é, diferente do que a ex mulher do escritor diz, a relação do casal é real e assim não difere de qualquer outra. Talvez o problema esteja com Theodore, já que é obvio que não superou o antigo relacionamento - a carência lhe faz encontrar alguém aos moldes de sua antiga esposa, sendo até o final o mesmo. Ele é medroso e não tem capacidade de acompanhar a evolução da parceira, mesmo que aparentemente a culpa seja do fato dela ser uma mera voz. Conseguimos ver que a culpa do fracasso está no próprio protagonista. O amor acaba por tornar-lhe fraco, abdicando de si mesmo, sem perceber que isso é o que piora as coisas. Samantha por outro lado, vive livremente sua vida sem a necessidade de depender do outro, assim como Catherine.
Isto pode ser visto no encontro às cegas. Apesar da diversão com a moça, o homem não consegue seguir em frente, pois a mulher não está de acordo com sua idealização. E Samantha suprime essa idealização, visto que se assemelha à Catherine - isto fica claro nas memórias que perpetuam a mente de Theodore. Ele simplesmente não superou o antigo casamento, criando um reflexo do próprio amor.
Amy sofre do mesmo problema, tanto que sua relação com um OS e até mesmo intimidade com Theodore, se inicia depois do divórcio.


ELA é um filme essencialmente sobre o amor, mas sob uma perspectiva realista. Ele trata de um modo fantástico o caminho que a sociedade segue, para um futuro onde a maior doença são os próprios sentimentos. E diante disto tudo, a solidão é personagem principal, fazendo nos perguntar, o que é o amor? Theodore realmente amava e estava feliz? Ou simplesmente é dependente do carinho e quando passa a olhar o mundo novamente sob o olhar da "felicidade", o que faz sentir-se vivo como uma droga viciante, não consegue mais sair disto?
Esse é o grande trunfo do filme, pois o diretor sabe que lida com algo totalmente pessoal, podendo soar galhofa para uns ou  incrivelmente profundo para outros. Não comete o comum erro da romantização. Quem faz isso é o escritor, na ironia de ser um produtor de emoções já que não sente nada.
O final pode ser uma prova sincera de amor do casal ou apenas a evidencia do vicio do personagem principal ao acordar para a realidade.
Não sei. Apenas concordo: o amor é uma forma de insanidade socialmente aceitável. Ou seja, não há o que concluir. Somente que a loucura é totalmente relativa.

El Psy Congroo.
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